Aos Mestres, com carinho!

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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

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“Assim como os perseguidos, os presos políticos, os torturados e os familiares de mortos e desaparecidos continuam vivos, o mesmo acontece com aqueles que dirigiram o país naqueles anos e que são responsáveis não apenas por todos os crimes contra os direitos humanos, como pela grande corrupção daquele tempo.”
“É exatamente a impunidade dos criminosos de ontem que estimula, naturaliza, banaliza e torna impunes os crimes, chacinas e massacres do presente. Hoje esses mesmos crimes são cometidos contra a população de baixa renda das periferias das cidades; contra os trabalhadores rurais e camponeses pobres; estão presentes nas torturas e assassinatos nas sombrias salas de ‘interrogatório’ das delegacias e outros órgãos públicos do presente”.
(Alípio Freire, jornalista, escritor e artista plástico brasileiro)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um cidadão acima de qualquer suspeita



Um dia, eles chegaram 
e levaram os travestis.
Mas eu não era travesti.
E por isto nada fiz.

Depois, eles chegaram
e levaram os homossexuais.
Mas eu não era homossexual.

Em seguida, 
levaram os ciganos. 
Mas eu também não era cigano.

Levaram os índios, os negros, os nordestinos e todos os estrangeiros.

Levaram cegos, aleijados e surdos-mudos.

Levaram os ateus, os espíritas, os judeus, os religiosos dos diversos cultos afro.

Levaram os comunistas, os socialistas os cristãos de esquerda
os anarquistas e todos os antifascistas.

Levaram os homens e mulheres de rua, os drogados e os loucos.

Levaram meu vizinho
porque gostava de música cubana e rum.
Mas eu também não gostava de música cubana, nem de rum.

Até que um dia chegaram em minha casa
e me mandaram que os seguisse

apenas porque eu não era 
travesti
homossexual
cigano
índio, negro, nordestino ou estrangeiro.

Não era cego, aleijado ou surdo-mudo,
ateu, judeu espírita, ou de qualquer culto afro.

Não era comunista, socialista ou cristão de esquerda
anarquista ou antifascista.
menos ainda era um homem ou mulher de rua, drogado ou louco.

Também diferentemente do meu vizinho
eu não gostava de música cubana, nem de rum.

Eu era apenas um bom cidadão 
que pagava religiosamente seus impostos
Um homem normal e sem vícios
que fez regularmente seu serviço militar
Tinha todas prestações e documentação em dia
CIC, RG, Carteira de Trabalho assinada, PIS-Pasep,
Título de Eleitor, atestado de Residência e Cartão de Crédito.
Conseguira até juntar um certo pecúlio
e jamais me meti em política ou qualquer tipo de protesto.

E, como sempre obedeci às nossas autoridades
e aos bons costumes,
quando eles chegaram em minha casa, 
não precisaram me levar.

Eu os segui até a forca com os meus próprios pés.


Alípio Freire
São Paulo, 09 de dezembro de 2010

De uma troca de mensagens entre Urariano Mota e Alípio Freire
Dos diálogos com Bertold Brecht

Publicado no Redecastorphoto

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Para quando falarmos das guerras



Quando falarmos das guerras
sejamos contidos
A simples emoção só ampliará os conflitos.

Quando falarmos das guerras
baixemos o tom
milhões de filhos de trabalhadores e do povo morrem nas trincheiras por causas que não são suas.

Quando falarmos das guerras
falemos com recato
Para não acordarmos os meninos que dormem
nas frentes de batalha.
Respeitemos seu último sono.

Quando falarmos das guerras
falemos com todo respeito
Para transformamos o desespero de mães, viúvas e órfãos
em gritos de paz.

Quando falarmos das guerras
não esqueçamos que o inimigo é a guerra
Os nossos únicos companheiros
são os povos.

Quando falarmos das guerras
falemos da igualdade entre os homens
Comecemos por apagar as fronteiras nacionais.

Quando falarmos das guerras
Lembremos que o inimigo alimenta os dois lados
É o capital.

Quando falarmos das guerras
Lembremos que só há uma trincheira legítima
A de nos negarmos a combater.

Quando falarmos das guerras
saquemos nossa melhor arma
A bandeira da paz e do socialismo.

Falar das guerras é o avesso
de falarmos da Revolução
Embora nossos companheiros e palavras-de-ordem
sejam sempre os mesmos

Alípio Freire
São Paulo, 3 de janeiro de 2009