Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Convite, poema de José Paulo Paes



Poesia 
é brincar com palavras 
como se brinca 
com bola, papagaio, pião. 

Só que 
bola, papagaio, pião 
de tanto brincar 
se gastam. 

As palavras não: 
quanto mais se brinca 
com elas 
mais novas ficam. 

Como a água do rio 
que é água sempre nova. 

Como cada dia 
que é sempre um novo dia. 

Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Casa, poema de José Paulo Paes


Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.

No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.

No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.

E no telhado um menino medroso que espia todos eles;
só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
         Antes que ele acorde e se descubra também morto.

         José Paulo Paes 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Acima de qualquer suspeita ("a poesia está morta mas juro que não fui eu")


a poesia está morta
mas juro que não fui eu
eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car
los drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquense foi extinta e josé paulo paes parece
munca ter existido

nem eu


sábado, 18 de abril de 2015

DO NOVÍSSIMO TESTAMENTO


e levaram-no maniatado

e despindo-o o cobriram com uma capa escarlata

e tecendo uma coroa d'espinhos puseram-lha na
cabeça e em suas mãos direita uma cana e
ajoelhando diante dele o escarneciam

e cuspindo nele tiraram-lhe a cana e batiam-lhe
com ela na cabeça

e depois de o haverem escarnecido tiraram-lhe
a capa vestiram-lhe os seus vestidos e o levaram
a crucificar

o secretário de segurança admitiu os excessos
dos policiais e afirmou que já mandara abrir
inquérito para punir os responsáveis

José Paulo Paes

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cena Legislativa


Primeiramente, condenou-se a pomba
Por amar uma paz entorpecente
Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes. 

Depois, condenou-se no cordeiro
A perigosa dúvida que o anima.
O rio dos lobos corre sempre para cima.

Condenou-se a cigarra, finalmente,
Pelo crime de cantar nas horas vagas
Que a faina das formigas não tem paga.

Consolidada a ordem, festejou-se.
E o leão rugindo, a hiena rindo,
Os trabalhos foram dados por bem findos.


José Paulo Paes

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

02 poemas de José Paulo Paes




Passarinho fofoqueiro

Um passarinho me contou 
que a ostra é muito fechada, 
que a cobra é muito enrolada, 
que a arara é uma cabeça oca, 
e que o leão marinho e a foca.. 
xô, passarinho! chega de fofoca!




Acidente

Atirei um pau no gato, 
mas o gato 
não morreu, 
porque o pau pegou no rato 
que eu tentei salvar do gato 
e o rato 
(que chato!) 
foi quem morreu. 


José Paulo Paes