Aos Mestres, com carinho!

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sábado, 25 de março de 2017

Desfecho, poema de Derek Walcott


Vivo nas águas,
solitário. Sem mulher nem filhos.
Atravessei todas as possibilidades
para chegar até aqui:
pequena casa em água cinza,
janelas sempre abertas
para o velho mar.  Não escolhemos o destino,
mas somos o que fizemos.
Sofremos, os anos passam,
lançamos a carga fora, mas não a necessidade
de obstáculos. O amor é uma pedra
no leito do mar
debaixo da água cinza.  Agora, nada mais quero
da poesia senão o coração.
Não quero a piedade nem a fama nem a cura. Silenciosa
esposa, contemplamos a água cinza,
e numa vida repleta
de mediocridade e lixo
vivemos como rocha.
Devo desaprender sentimentos,
esquecer meu dote.  Isto é maior
e mais difícil do que o que se entende por vida.

Derek Walcott

Tradução de Alberto Pucheu

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amor Depois Amor, poema de Derek Walcott



Tempo virá
quando, com euforia,
você irá se cumprimentar chegando,
a sua própria porta,
em seu próprio espelho
e cada um sorrirá ao seja bem-vindo do outro
e dirá, sente-se aqui. Coma.
Você vai de novo amar o estranho que era você mesmo.
Ofereça vinho. Ofereça pão. Devolva seu coração
a si mesmo, para o estranho que amou você
toda a sua vida, quem você ignorou
por outro, que conhece você de coração.
Derrube as cartas de amor da estante,
as fotografias, as notas desesperadas,
descasque sua própria imagem do espelho.
Sente-se. Celebre a sua vida. 

Derek Walcott *

Tradução de Salomão Rovedo

* Derek Walcott, prêmio Nobel de literatura em 1992, morreu, hoje, aos 87 anos em Santa Lúcia, seu país natal.