Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
Mostrando postagens com marcador Arthur Rimbaud. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arthur Rimbaud. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Vênus Anadiômene, poema de Arthur Rimbaud


Como de um verde túmulo em latão o vulto 
De uma mulher, cabelos brunos empastados, 
De uma velha banheira emerge, lento e estulto, 
Com delícias bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas 
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar; 
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas, 
E o redondo dos rins como a querer voar...

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor 
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor, 
Particularidades que demandam lupa...

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS; 
- E todo o corpo move e estende a ampla garupa 
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

Arthur Rimbaud

Tradução de Augusto de Campos

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Minha Boemia (fantasia), poema de Arthur Rimbaud


Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;

O meu paletó não era bem o ideal;
Ah! E sonhava mil amores insensatos

Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal;

Pequeno Polegar, eu tecia no percurso

Minha única calça tinha um largo furo.
Um rosário de rimas. A Grande Ursa,
Nessa noite de setembro em que sentia

O meu albergue, brilhava no céu escuro.

Sentado na sarjeta, só, eu a ouvia
O odor das rosas, que vinho vigoroso!

De meus sapatos, e o coração doloroso!

Ali, entre inúmeros ombros fantásticos,
Rimava com a débil lira dos elásticos


Tradução de Claudio Daniel

sábado, 8 de outubro de 2016

No Cabaré-Verde às cinco horas da tarde, poema de Arthur Rimbaud

 

Depois de oito dias, larguei as botinas
Pelo caminho. Eu entrei em Charleroi.
— No Cabaré-Verde: pedi torradas finas,
Manteiga e presunto, que é frio o lugar.

Feliz, estiquei as pernas sob a mesa
Verde: e contemplei os toscos motivos
Da tapeçaria. — E foi uma beleza
Quando a vi, enormes tetas, olhos vivos,

É ela! Não é um beijo que a apavora!
Risonha, trouxe a refeição na hora,
O presunto tostado, num belo prato,

O presunto róseo e branco perfumado
Pelo alho — e encheu-me o copo ávido
De espuma brilhante como um raio de sol.


Tradução de Claudio Daniel

domingo, 31 de julho de 2016

Canção da Torre Mais Alta, poema de Arthur Rimbaud

 
Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.

Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.

Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.

Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.

Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?

Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Oh estações, oh castelos!, poema de Arthur Rimbaud


Oh estações, oh castelos!
Que alma é sem defeitos?

Eu estudei a alta magia
Do Amor, que nunca sacia.

Saúdo-te toda vez
Que canta o galo gaulês.

Ah! Não terei mais desejos:
Perdi a vida em gracejos.
Tomou-me corpo e alento,
E dispersou meus pensamentos.

    Ó estações, ó castelos!

Quando tu partires, enfim
Nada restará de mim.

    Ó estações, ó castelos!
Arthur Rimbaud

sábado, 14 de novembro de 2015

A Eternidade, poema de Arthur Rimbaud


Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
        Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
           O dever
           É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
       Ao sol.