Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quinta-feira, 19 de julho de 2018

MPB4 - "Pesadelo"


PESADELO

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)

Pós-golpe


terça-feira, 17 de julho de 2018

O fim e o início, poema de Wislawa Szymborska



Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e consequências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.


Wislawa Szymborska

domingo, 10 de junho de 2018

Europa, França e Bahia, poema de Carlos Drummond de Andrade


Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.
Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete
para Sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, embigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros
dentro de alguns anos.
A Itália explora conscientemente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suiça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia.
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a declanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme
está batendo, batendo mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do exílio".
Como era mesmo a "Canção do exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O Mal e o Sofrimento, poema de Leandro Gomes de Barros




Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

domingo, 27 de maio de 2018

E agora, mané?, por Elika Takimoto

Aroeira

E agora, mané?
A gasolina acabou,
a pobreza aumentou,
o gás subiu,
o patrão se irritou,
e agora, mané?
e agora, você?
você que não passou fome
que zombou dos pobres,
você que é perverso
que trama, “protesta”
e agora, mané?

Não respeita mulher,
Não respeita o discurso,
Não respeita carinho,
já não pode receber,
já não pode gastar,
divertir já não pode,
a noite esfriou,
o uber não veio,
o táxi não veio,
o motorista não veio
não veio a empatia.

A democracia acabou
A democracia sumiu
A democracia mofou,
e agora, mané?

E agora, mané?
Sua estúpida palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
seu raciocínio furreca,
sua palavra de agouro,
seu neurônio de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com o celular na mão
se faz de morta,
não há quem lhe suporta;
quer correr para conversar,
mas a paciência acabou;
quer ir para Miami,
Vôos não há mais!
Mané, e agora?

Se você pensasse,
se você algo lesse,
se você lembrasse
das aulas pertinentes,
se você ouvisse,
se você raciocinasse,
se você estudasse...
Mas você não acorda,
você é burro, mané!

Com o exército na rua
qual capitão do mato,
sem democracia,
sem algo que usufrua
para ostentar,
sem cavalo preto
Para fugir a galope,
você pasta, mané!
Mané, até quando?

(Revisitando Carlos Drummond - E agora, José?)