Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 12 de julho de 2014

Wear the old coat and buy the new book

Via Tenho estado a ler Whitman

"Me chamam de um editorial
e me pedem que escreva
cinco folhas sobre a necessidade da leitura

Não pagam muito bem
e quem poderia pagar bem por um tema desses?
mas de qualquer maneira
preciso do dinheiro

assim que ligo meu computador começo a pensar
sobre a necessidade da leitura
mas não me ocorre nada

é algo que seguramente sabia quando era jovem
e lia sem parar
lia na Biblioteca Nacional
e nas bibliotecas públicas

lia nos cafés
e nas consultas ao dentista

lia no ônibus e no metrô

sempre andava olhando os livros

e passava as tardes nos sebos
até ficar sem um tostão nos bolsos

tinha que voltar para casa a pé

por ter comprado um Saroyan ou uma Virginia Woolf

Então os livros pareciam a coisa mais importante da vida

fundamentais

eu não tinha sapatos novos
mas não me faltava um Faulkner ou um Onetti
uma Katherine Mansfield ou uma Juana de Ibarbourou

hoje os jovens estão nas discotecas
não nas bibliotecas

eu fiz uma bela coleção de livros
ocupavam toda a casa

tinham livros em toda parte
menos no banheiro

que é o lugar onde estão os livros
da gente que não lê

as vezes tinha que seguir durante muito tempo
as pegadas de um livro que tinha saído no México
ou em Paris

uma longa pesquisa até consegui-lo

Nem todos valiam a pena
é verdade
mas poucas vezes me enganei
tive meus Pavese meus Salinger meus Sartre meus Heidegger
meus Saroyan meus Michaux meus Camus meus Baudelaire
meus Neruda meus Vallejo meus Huidobro
para não falar dos Cortázar ou dos Borges
sempre andava com anotações nos bolsos
dos livros que queria ler e não encontrava
ali andavam os Pedro Salinas e os Ambrose Bierce
a infame turba de Dante
mas agora não saberia dizer pra que maldita coisa
serve ter lido tudo isso

mais que para saber que a vida é triste

coisa que poderia saber sem precisar tê-los lido

Depois de cinco horas eu ainda não tinha escrito
uma só linha
assim que comecei a escrever esse poema
Chamei os do editorial
e disse creio que a única coisa para que serve
a leitura
é para escrever poemas

não posso dizer mais que isso

então me disseram que um poema não servia,
que precisavam de outra coisa."

(Cristina Peri Rossi)

Tradução Nina Rizzi

Texto Daqui oh

segunda-feira, 7 de julho de 2014

desarranjos, por Carla Diacov

Foto: Luiz Navarro


desarranjos, por Carla Diacov
para Marcelo Novaes e para Ana Ehre.

1.
embeba-te dum canto do quarto
em lá
louco de tua sombra
listas
objetos para a tua despedida
um limão partido
para que não lhe seque a boca
uma chinela só
para que um dos teus pés fique à procura
um rumo de poeira traseira
para que possas subir
seguir à esquerda
então à direita
para que possas passar a orbitar outras horas que não esta
só agora que agora é então
portanto
só então
feche os olhos e a boca
respire mais uns segundo
e mais um e mais um
inspire como que vomitando tudo o que te enfiaram goela abaixo como definição de coisa
que
agora
agora que é então
tu sabes bem
não são
ah, Marcelo! as coisas que finalmente não são.

2.
corte
ou fure
um pedacinho do teu dedo
ó
o teu dedo
a pequeníssima dor
em ondas
em pequeníssimas ondas
ó
corte ou fure ou
destampe a ponta do teu dedo
com ele
o dedo sangrento
toque o contorno do teu rosto refletido no puxador da gaveta
sabes bem que nesta gaveta
estão
as cartas que não mandaste
ó
as cartas
dentro destas
os cheiros de tudo o que …
é de lembrar?
é de saber desses cheiros, não?
não!
não tome as cartas nas mãos
sequer abra a gaveta
poderíamos com a crueldade neste segundo?
há uma luz no rabo dum inseto que se diz musical
há um verso repetindo a tua cabeça
há um nó desarranjado dos outros nós na embarcação:
enterra-te neste.
onde o sangue fez garças no teu rosto
deverá nascer um espaço para as memórias do novo chão.

3.
beatifico um broche que tenho
um par de botas ao estilo cowboy
há dia de não me saber
caso eu não use o broche
se já estou longe de casa
sinto que estou muito mais
longe

desembestada
grito COMO PUDE?
……..COMO LARGAR MEU ORÁCULO SEM MIM?
agora sabes que também o tenho como oráculo
e ainda logo
e dizer
AINDA LONGE
ainda
AINDA LONGE E SEM MEU ORÁCULO DA SORTE
sorte
benção
proteção
escudo
dado
agora tenho de entrar num elevador
entro de costas
como manda o bom e velho costume que acabo de inventar
no caso da ausência do broche
a entrança em elevadores
somente pelas costas
ando desejando viajar
até onde não possa mais a  excursão do toque
daí que penso em não levar o broche comigo.

4.
parei de contar estrelas
no dia em que parei de contar aos outros
que contava estrelas
que já havia um catálogo iniciando-se
que em minha metodologia
gostava de fazer uso de medalhas como
irmandade
loucura
xarope, quilograma e medalha
parei de contar as estrelas
não paro de contar mentiras
(ossos das imagens que ainda)
sou imprudente demais, Ana.
e atravesso a nado o mar da miopia.

5.
já podes fazer tuas próprias meias!
o homem sentado diante do abajur azulado
sente tanto o frio lhe agarrando pelos pés
e nada faz
além de sentir
olha a fiação do telefone
o caminho no rodapé
força a memória
a cor antiga
o tempo em que a tia Sandra ensinou
CEBOLA? OU CÊ PICA MIUDINHO
OU NEM PICA!
que frio
o restolho da quentura escapando pelos pés
e nada faz
olha pela janela central
a vizinha a desenrolar um imenso cartaz
já podes fazer tuas próprias meias!
e nada faz
além de sentir:

6.
há o alcance
há uma coisa ou um vagão onde se chegar
há a tua e a minha vontade

nalgum lugarejo que não este e nem aquele
a aproximação
se eu fosse de cascas
iria pelada
para sentir no sumo
no suco do que sou
a agonia
se eu fosse de cera
eu não iria
se eu fosse você
eu pediria
COMA-ME E LEVA-ME CONTIGO
PELO TEU LADO DE DENTRO
EM LÁ
VOMITA-ME
se você fosse eu
você perguntaria
LÁ ONDE?
daí que há também a transpiração
e a transpiração dos objetos.
e então?
should we?
há essa chance ainda. agora.
agora que é então.

7.
uma corda
uma pequena corda
e levantar-se pela manhã
pela noite
deitar-se
e uma corda
de ter junto
a dizer
poder dizer
com a corda em punho
dizer de monstros
desorganismos
alergias
e de cadeiras que não se encaixam ao mundo
há um desenho
(iria pelada se eu fosse de cascas)
há um desenho
no fundo do fundo
daquela mesma gaveta que não
nele
no desenho
uma corda puxa uma baleia morta e a amarra na pontinha da tua barba puta.
então tua necessária cadeira
desencaixada do mundo inteiro.
e eu te amo.
e nem te amo tanto, mas amo.
e tua barba é puta.

8.
pois é.
há o alcance.
há uma coisa ou um vagão onde se fazer.
está nos novíssimos catálogos de ser
coisa e deus.
coisa de ninguém.
coisas devolvidas pelo mar.
gaguejante.
crente.
engolidas e depois arrancadas de suas apropriações.
irremediavelmente.
arruinadas de suas cores.
pois é
é jamais.
regurgitar.
uma oração
um par de luvas de orar.
deus!
coisa!
que jamais seja também a violência inevitável e de afetuoso traço
nas coisas que.
caneta
caneca
caçarola e corrente.
cada pedido de cada coisa.
porque coisa pede, ora. 
sou Carla Diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci em São Bernardo do Campo e moro em Itanhaém e brinquei na praça-dos-meninos em S.B.C.. morei em Londrina e ela em mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de fôrma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando. agora dei de bulir com as plásticas também. e elas comigo. sei que vou. sei que volto. sei de mim, parada, medindo os dedos, os meus e os dos outros.

domingo, 6 de julho de 2014

Morre o jornalista Ronildo Maia Leite!


Dedico esta postagem aos amigos tricolores Chico e Araken e aos amigos alvirrubros Didi e JJ.

Hoje, feliz com a notícia de que o meu querido Santa Cruz estreou com vitória (3 x 0) contra o nosso irmão CSA, na série D; informo aos meus 10 leitores, em primeira mão, que incluí o blog do Santinha, editado, entre outros, pelo admirável Samarone Lima na minha lista de blogs.

Recebo, triste, a notícia da morte do jornalista Ronildo Maia Leite - tricolor saudável - aos 78 anos de idade, por quem sempre nutri uma grande admiração, nunca antes publicizada, posto que os "nossos jornais" sempre estiveram nas mãos das poucas "famiglias" – expressão felicíssima do nosso amigo irmão Cloaca News - que formam a máfia da imprensa no Brasil.

Hoje, graças à internet, proclamo minha admiração pelo mestre, que entre suas virtudes, era amigo de um dos meus grandes ídolos, o saudoso, entre os vivos, mas sempre eterno Gregório Bezerra.

Parabéns ao Santinha: saudades do tricolor Ronildo!

Itárcio Ferreira

6 de julho de 2009

Publicada originalmente em 06 de julho de 2009, no Claudicando.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

5 atividades sexuais “depravadas” que são boas para sua saúde

Encontrei no Hypescience
Via cracked
Se você é daquelas pessoas que nem consegue dizer a palavra “sexo” sem ficar vermelha, não prossiga. Nesse artigo, vamos falar de tudo que as pessoas acham “tabu”, “depravado” ou “estranho”, e daí vamos piorar a situação afirmando que a ciência diz que isso é bom pra você.

5. SDSM é bom para a sua saúde psicológica

5
SDSM é um acrônimo para a expressão “Submissão e Disciplina, Sadismo e Masoquismo”, um grupo de padrões de comportamento sexual humano (…que faz algumas pessoas contorcerem o rosto em desaprovação). No entanto, dizem os estudos científicos, pessoas que curtem SDSM são psicologicamente mais saudáveis do que as pessoas que não praticam nenhum desses comportamentos. Os fãs de SDSM são mais extrovertidos e abertos a novas experiências, além de menos neuróticos, ansiosos e paranoicos. Eles também são mais seguros em seus relacionamentos, mas isso pode ser porque os seus parceiros estão acorrentados na cama (espero que vocês tenham entendido que isso foi uma piada e não tentem o mesmo em casa).

4. Poliamor torna os relacionamentos mais fortes

4
“Poliamor” é uma palavra grega chique para “relação aberta” (também conhecida como “fazemos o que queremos, mas nos amamos”). A ciência diz que as relações poliamorosas são boas para os casais porque exigem bastante diálogo, que é a parte mais importante de um relacionamento. Honestidade, transparência e comunicação são pilares nas relações poliamorosas. O ciúme também é quase inexistente. No entanto, mesmo quando esse sentimento aparece, casais em relações poliamorosas conversam para descobrir o que está lhes incomodando e negociam limites.

3. Sexo casual é bom (se você fizer isso pelas razões certas)

sexo casual
Sexo casual é um grande tabu na sociedade hoje – as mulheres taxadas de “vagabundas” que o digam. Mas a ciência diz: “Foda-se o que os outros acham”. Literalmente. De acordo com essa grande mestre do universo, fazer sexo é bom para você se você está fazendo sexo porque quer. Simples assim. Sexo casual é ruim para você se você está fazendo isso para esquecer sua própria falta de autoestima e sentimentos de inadequação. Mas se você só gosta de esfregar seus órgãos genitais em outras pessoas, então isso é de fato bom para a sua autoestima. Não parece uma distinção óbvia?

2. Fazer sexo “naqueles dias” alivia cólicas menstruais

menstruacija problemi
Apesar de praticamente todas as mulheres do mundo usarem o fato de estarem menstruadas como uma razão para não fazer sexo, não há nada que apoie a ideia de que sexo não pode ser feito durante o período de menstruação. Na verdade, pode ser bom para as mulheres. Segundo a ciência, “partir o mar vermelho” pode ajudar a aliviar os sintomas mais desconfortáveis do ciclo menstrual, porque “as contrações do orgasmo no útero agem como uma massagem interna reconfortante”. Então pare de ser nojenta (ou nojento, se for o homem que não quiser encarar a situação), forre o local escolhido com uma toalha, e proceda como de costume.

1. Masturbar faz MUITO bem para a saúde

1
A comunidade científica é fã da masturbação. Segundo eles, ela é boa para os homens porque protege contra o câncer de próstata, e para as mulheres é incrível porque faz de tudo, como ajudar a prevenir infecções do colo do útero e a aliviar infecções do trato urinário, melhorar a saúde cardiovascular e diminuir o risco de diabetes tipo 2, além de trabalhar contra a insônia, através da liberação de hormônios. É importante notar também que a masturbação melhora o humor, e ser feliz faz você viver mais. Em suma, masturbação não deveria associada a nerds adolescentes desajeitados, mas sim com uma vida perfeitamente saudável e feliz. [Cracked]

terça-feira, 1 de julho de 2014

A Saúde Pública no Brasil e a Copa do Mundo de Futebol

Compelido pelo clima futebolístico dos dias atuais; pela participação do Náutico e do Sport no brasileirão, que acompanho através das discussões acaloradas dos meus colegas de repartição; pela recuperação visível do meu Santinha, que com certeza sairá campeão da série D, rumo a C, a B e por fim a “glória” da série A; pelo jogo do Brasil no templo do Arruda, pelas eliminatórias para a próxima Copa de 2010; pela Copa das Confederações e por fim pela Copa de 2014 que cá se realizará.

Compelido ainda pela campanha da Argentina, treinada pelo meu ídolo Maradona; compelido pela torcida pelos nossos hermanos, cuja imprensa tenta sempre em tratar como nossos inimigos, ecos de intrigas instaladas pelos ingleses, herdadas pelos estadunidenses e mantidas hoje por ingênuos ou maldosos “nacionalistas”.

Compelido, por fim, pela esperança de que o Dr. Sócrates seja eleito um dia presidente da CBF, assim como Lula o foi nosso Presidente, e que finalmente seja introduzida a democracia no futebol, como foi no nosso país.
Por tudo, fui buscar no fundo de “O Baú que não é do Raul” este pequeno texto, um textinho, um textículo, como diria Xico Sá, 
escrito em 20 de junho de 2002, final das eras, quase o fim da história, pois se mais um mandato fosse dado aos privatas neoliberais não existiria mais um país chamado Brasil, tampouco a maior quarta empresa petrolífera do mundo, chamada Petrobras.

(Itárcio Ferrreira)

******

Quisera no nosso país houvesse uma torcida tão grande, tão empolgada, disposta a acompanhar cada lance de jogo, brigona, alegre e lutadora quanto à torcida da nossa Seleção de futebol, pela melhoria das condições da saúde pública no Brasil.

Para cada jogo de nossa Seleção se formam caravanas, organizadíssimas, o que não foi diferente nesta Copa do mundo de futebol que ora se realiza. Caravanas foram formadas para se deslocarem aos longínquos Japão e Coréia.

Quanto a nossa saúde pública... Caso fosse uma seleção, comparando-a com as seleções da copa, seria pior que a da Arábia Saudita no jogo contra a Alemanha, oito a zero. Nossos jogadores, ou seja, os nossos irmãos brasileiros que efetivamente se utilizam do SUS, uma população de 130 milhões de brasileiros, isto mesmo, dos 170 milhões de brasileiros, mais de 76% dependem exclusivamente do SUS para se socorrerem, estão mal treinados, ganham pouco e o seu regime alimentar não os faz correr em campo.

Nosso treinador, há oito anos no cargo, nada fez que pudesse mudar a nossa performance. As verbas para melhorar o nosso time da saúde por vezes e vezes foram usadas, ou mal usadas, em outras áreas, - ver o caso do CPMF, por exemplo, ou o desnecessário reaparelhamento das nossas forças armadas, como se estivéssemos em guerra externa, ou o pagamento dos juros da dívida, dívida mal contraída e mal aplicada, - e em outras oportunidades, simplesmente usadas em corrupção.

Os juízes, esses não têm favorecido a nossa seleção, muitas vezes venais ou omissos, fazem que não enxergam as faltas ou pênaltis cometidos contra nossa seleção da saúde pública, quantas partidas temos perdidos, quantos vexames!

O que mais impressiona é que muitos desses juízes, que têm assento no judiciário, foram colocados lá pelo nosso técnico FHC; nos conflitos entre nossos 130 milhões de jogadores, sempre o árbitro aplica falta a favor do técnico, (sim, pois o nosso técnico tem agido como um time inimigo), mesmo que para isso tenham que mudar as regras! Isto é um absurdo, assim nunca conseguiremos chegar a uma final.

Mas, o que mais entristece é que a torcida, aquela mesma que acorda de madrugada para assistir um jogo da nossa Seleção de futebol, aquela mesma que tem condições de pagar um plano de saúde privado, aquela mesma que tem condições de viajar a Coréia e ao Japão para assistir ao vivo os jogos da Seleção de futebol, se mostra omissa na torcida pela nossa seleção da saúde pública.

É triste, quando tudo indica que o Brasil poderá ir a mais uma final da Copa do mundo de futebol, a nossa seleção da saúde pública, doente, foi novamente desclassificada.

(Itárcio Ferreira)

Publicado originalmente em 15 de junho de 2009, no blog Claudicando.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Valores includentes e excludentes

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Publicado originalmente em 27 de junho de 2009, no Claudicante.

Utilizo no texto “Ética e jornalismo” a expressão valores universais e moralmente superiores em contrapartida aos interesses financeiro-mercadológicos e ideológicos; e justamente condeno o viés ideológico único, dos donos do poder, que pode ser o dono do jornal, televisão, rádio, etc., atrelado ao grupo político dominante, que na época era a direita, representada aqui no Brasil por FHC, e no Peru, pelo ídolo dos neoliberais, Fujimori.


Atualizando, pois o texto é de 2002, se assistirmos ao Jornal Nacional, da Rede Globo, identificaremos claramente esse viés ideológico único, trabalho maravilhoso neste sentido foi realizado pelo Sakamoto; ao contrário, no Repórter Brasil, da TV Brasil, esse viés é, sempre, diluído, quando se ouve, sobre determinado e polêmico assunto, os dois lados da história, representantes das chamadas esquerda e direita.


Com certeza você situa, e corretamente, que a moral é produto do tempo, e também do espaço, não é estática, e reflete entre outros aspectos, as relações de produção e a cultura vigente.


Se optarmos pela idéia de um bem supremo, estaremos na companhia de Platão; ao contrário, na companhia de Pascal, nada mal.


Espinoza e Kant, principalmente este, buscaram princípios que, independente do tempo e da sociedade guiariam o homem na busca do bem, falharam? Acredito que sim. Na identificação do princípio, não que este não exista.


Seria o respeito à vida, a integridade física, por exemplo, valores universais?


Confesso que transito entre as duas posições - racionalismo e empirismo – apesar da marretada que vem com Nietzsche. Da mesma forma transito entre o ateísmo – às vezes convicto, como uma crença -, e o agnosticismo, achando-me incapaz de conceber qualquer verdade ou indício desta, ou seja, sou – ou somos? – uma metamorfose ambulante.


Quando no meu texto menciono valores universais e moralmente superiores, faço-o sob a ótica de Nietzsche - uma contradição? –, valores que façam com que o homem viva em sua plenitude a vida, valores que não subjuguem o homem ao homem, mais universais do que isto?


A busca da liberdade seria outro valor universal?


Vivemos num embate histórico, e mais uma vez não podemos nos abstrair do contexto social, do tempo, do espaço, das relações de produção, etc., mas situá-lo, para efeito didático e pontual, como no caso do artigo em questão, é a dicotomia direita-capitalista versus esquerda-socialista.


O que é ser de esquerda? Para mim é estar do lado dos excluídos, não apenas como torcida, mas em alguma forma de luta, nem que seja apenas a voz, o grito. E o que é ser de direita? É estar ao lado do capital, do lucro, da acumulação irracional, dos que exploram os excluídos.


Uma saída para identificarmos “valores universais e moralmente superiores”, talvez, não ao longo de toda a história do homem, não no aquém nem no além, mas no agora, na dicotomia esquerda-direita, sem querer ser o dono da verdade ou ter encontrado uma saída mágica para a questão, é questionar se os valores são excludentes ou includentes.


Se excludentes, são valores da direita-capitalista, portanto, não-universais e moralmente inferiores, vide ao que conduziram esses valores: a primeira guerra mundial, a segunda, a exploração cruel da Ásia e da África, só para ficarmos nos aperitivos.


Se includentes, são valores da esquerda-socialista: se quero comer todo dia, quero não apenas alimentos para mim ou para o meu grupo, mas para todos.


Isto é perigoso? Sim. Viver é perigoso. Einstein é perigoso? Quando coopera na produção de uma bomba atômica, sim. Um avião é perigoso? Quando bombardeia Gaza, sim. E uma faca? Quando assassina alguém, sim. Dependem do uso que demos a eles, aos valores.


Durante séculos vivemos sob a mentira de que valores superiores e universais eram os dos países capitalistas ricos. Houve até a decretação do fim da história. Até que em setembro de 2008, também para os mais céticos, a coisa ruiu. Vinha ruindo desde sempre, mais se acelerou com o neoliberalismo – obrigado São Reagan! Obrigado Santa Margareth Thatcher! -, e com a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética.


Portanto, sem medo de errar, apaixonado pela destruição apaixonada da moral “dos rebanhos” e “dos escravos”, de Nietzsche. Na crença, junto com os defensores do direito natural, de que existem direitos e valores inalienáveis. Considero como valores universais e moralmente superiores os valores includentes, aqueles que foram e serão gerados com a implantação de uma verdadeira sociedade socialista.



(Itárcio Ferreira)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

CINQUENTANOS

(Botero)


Quem é este que me olha do espelho
Às seis da manhã
Com os olhos ainda encharcados de sono?

De repente brincava de pião com os amigos de infância,
Agora vejo, no reflexo do espelho, um homem cansado e incrédulo:
A face com rugas em que navegam sonhos não realizados.

O rosto no espelho me olha e pergunta-me quem sou.
Ontem menino enamorado de minha primeira paixão,
Hoje avô e pai do meu pai a quem vejo, cada vez mais em mim mesmo.

Espelho, por que não me avisastes que os anos passavam sem que eu percebesse?
Como? Me dizes que dia a dia me mostrasses o meu caminho sem volta?
Não vi, não percebestes? E o espelho sorrindo: “Agora tarde! Agora é tarde!”.


(Itárcio Ferreira)


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cantada


cantadas-as-piores-cantadas
*Imagem daqui


Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana
Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana
(Ferreira Gullar)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

INEXISTIR

Futebol na Favela
*Imagem daqui

Há poemas 
Que se negam a nascer
Por inteiro.

Mostram-se apenas um bracinho,
Uma perninha,
Um sorriso.
Apenas o necessário para que nos apaixonemos.

Mas negam-se a nascer...
O motivo?
Sabe-se lá...

Travessuras, talvez.

Tenho vários desses quase rebentos.
Habitam as minhas gavetas,
Dentre os meus livros,
Em folhas amareladas 
E pintadas com meus rabiscos,
A espera que amadureçam.

Mas é inútil.
São travessos.
Apenas pequenos poemas travessos.



(Itárcio Ferreira)

quinta-feira, 5 de junho de 2014