Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O papel das mulheres na literatura ainda é tímido e, muitas vezes, classificado apenas como literatura "feminina"

livros escritos por mulheres literatura
22 livros escritos por mulheres selecionados por Andréa Martinelli, Ione Aguiar e Luiza Bodenmüller (Imagem: Pragmatismo Político)

Andréa Martinelli, Brasil Post
Pare um minuto do seu dia e olhe fixamente para a sua estante de livros. Quantas autoras mulheres você consegue contar? Vamos te dar alguns segundos para isso: Se você tem mais de uma escritora em sua coleção particular já é um bom sinal.
A maioria não se importa se um livro é ou não escrito por uma mulher. Talvez por isso o papel das mulheres na literatura ainda seja tímido e, muitas vezes, classificado apenas como literatura “feminina” (lembra-se das Sabrinas e Júlias nas bancas?); enquanto livros escritos por homens não são tomados como “masculinos“.
Uma pesquisa divulgada pela editora Alpaca em maio deste ano, aponta que 50% das pessoas leem cerca de 10 livros por ano e cerca de “1 a 2 livros” ou de “3 a 5 livros” escritos por mulheres. O portal VIDA (Women in Literary Arts), que verifica a presença numérica das mulheres na literatura, comprova que há uma divisão entre a presença dos gêneros nos principais jornais do mundo, em que as mulheres representam um número muito menor entre as autoras de obras resenhadas.
Para tocar nessa ferida, o projeto “Read Woman 2014“, da escritora Joanna Walsh, ganhou proporção mundial neste ano e até uma hashtag e um Tumblr em português foram divulgados:#leiamulheres2014. E ela tem apenas uma intenção: Quer que mulheres sejam (mais) lidas.
editoria Outra Medida, do Brasil Post e que está presente em todas as edições do Huffington Post, tomou os homens como tema principal recentemente.
Aproveitando este gancho, confira abaixo uma seleção de livros escritos por mulheres que todo homem precisa ler (ou pelo menos deveria). Mas se você não é homem e ainda não conhece ou ainda não leu algumas delas, esta é a sua chance.
Mr. Dalloway, Virginia Woolff | Alice Munro, Vida Querida
livros escritos por mulheres
Clarisse Lispector, A Hora da Estrela | A menina sem qualidades, Juli Zeh
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Carol Bensimon, Todos Nós Adorávamos Caubóis | Isabel Allende, A casa dos espíritos
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Adelia Prado – A Faca no Peito | Juliana Frank – Meu coração de pedra pomes
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Zélia Gattai – Anarquistas graças a deus | Sylvia Plath – Ariel
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Cecilia Meirelles – Janela Mágica | Anne Frank – O Diário de Anne Frank
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Hannah Arendt – A condição Humana | Hilda Hilst – A obscena senhora D
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Mary Del Priori – Histórias Íntimas | Vanessa Bárbara – O livro amarelo do terminal
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Emily Brontë – O morro dos ventos uivantes | Dona Tart – O pintassilgo
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O segundo sexo – Simone de Beauvoir | Jane Austen – Razão & Sensibilidade
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Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas | Um é o outro – Elisabeth Badinter
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terça-feira, 9 de junho de 2015

O que tem de ser dito


Por que me calo, já por tempo demais
Sobre o que é evidente e foi ensaiado
em jogos de guerra, ao final dos quais, como sobreviventes,
somos, se muito, notas de rodapé?

É o alegado direito do primeiro ataque,
que poderia apagar o povo iraniano
subjugado por um boquirroto
e dirigido ao júbilo coletivo,
porque se cogita construir uma bomba atômica
na esfera de poder do Irã.

Mas por que me nego,
a tratar pelo nome aquele outro país
no qual há anos — embora em segredo —
existe potencial nuclear crescente
mas fora de controle, por que nenhum auditor é deixado entrar?

O ocultamento geral desse fato,
ao qual se subordina o meu silêncio,
cai sobre mim como pesada mentira
e coerção, que ameaça castigos;
a condenação de “antissemitismo" é a mais comum.

Agora porém, porque meu país,
cujos velhos crimes antigos,
que são inigualáveis,
é chamado e chamado e assume a tarefa
embora repetidamente e protocolarmente,
com lábios escorregadios, chame de reparação,
será enviado a Israel
mais um submarino, cuja especialidade
consiste em levar ogivas mortais devastadoras de tudo
a um local onde nem se sabe com certeza se há bomba,
como se o medo fizesse prova de algo,
digo o que tem de ser dito.

Mas por que me calei até hoje?
Porque achava que minha origem,
maculada por mácula irremissível
proibia atribuir esse fato, como verdade declarada
ao país Israel, ao qual eu sou e
quero continuar ligado.

Por que só digo agora,
envelhecido e com tintas finais:
Israel potência nuclear põe em risco
a já frágil paz mundial?
Por que é preciso dizer
o que amanhã já pode vir tarde demais;
também porque nós -alemães já suficientemente sobrecarregados-
poderíamos nos tornar cúmplices de um crime
previsível, razão pela qual nossa cumplicidade
não pode ser disfarçada-escondida
nas desculpas costumeiras.

Assumo e admito: não me calo mais
porque estou enojado com a hipocrisia do Ocidente;
além disso, há a esperança
de que muitos se livrem do próprio silêncio,
e exijam que o causador do perigo evidente
abstenha-se de violência
e ao mesmo tempo insistam
que haja controle sem restrições.

Günter Grass

A Suspeita (1999) - Parte 3/3


Primeira parte AQUI.

Segunda parte AQUI.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Passei para deixar um recado

Poetisa Izabel Ferraz, via Facebook

Passei para deixar um recado
Rápido, simples, reservado
Para que só TU saibas
O que se passa
Por mim
Talvez pra ti não seja nada
Por ainda ser apaixonada
E ainda te desejar muito
E te amar
Assim 
Prometo-te, mesmo sendo errado
De continuar ao teu lado
Por poucos momentos
E o que me resta
Por fim

A Suspeita (1999) - Parte 2/3


Assista a 1ª parte AQUI.

domingo, 7 de junho de 2015

A Suspeita (1999) - Parte 1/3

Os Tempos Modernos


Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.

A carne nova come-se com velhos garfos.

Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros

As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.



sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mdou Moctar - "L'amour"

Será que ele é?

2589

Ana Cristina Cesar aos 60


Por Milton Ribeiro, em seu blog
Quando Ana Cristina Cesar cometeu suicídio em 1983, aos 31 anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, na rua Tonelero, em Copacabana, foi um pranto geral no mundo das letras. Era compreensível. Tratava-se de um raríssimo e precioso talento emergente na acanhada literatura e poesia brasileiras, era parte importante do futuro. Muito culta e bonita, Ana, nascida há 60 anos, em 2 de junho de 1952, recebeu as mais surpreendentes homenagens post mortem. Além dos obituários e do lamento de seus leitores, apareceu uma fila de ex-namorados e conhecidos escrevendo enlouquecidas colunas. Pessoas que conviveram com ela, que a viram uma ou outra vez, que beberam algo em sua companhia, que a beijaram ou ficaram com ela, muita gente desejou registrar o quanto gostava e admirava Ana C. Porém, o que mais estarrecia eram os citados namorados. Inacreditáveis, pareciam dispostos a uma competição de visceralidade e mau gosto, da qual estava livre Marcos Augusto Gonçalves e outros poucos. Desejavam comprovar sua (ou uma) intimidade com detalhes e mais detalhes. Tal fato é tanto mais espantoso quando comparado com a enorme elegância da poetisa.
Sinto ciúmes desse cigarro que você fuma
Tão distraidamente.
Tudo foi muito rápido para Ana Cristina Cesar. Aos seis anos, antes mesmo de ser alfabetizada, ditava poemas para sua mãe escrever. Em 1969, aos 17 anos, foi para Londres num intercâmbio, voltando apaixonada pela literatura de língua inglesa, e principalmente pelas obras de Katherine Mansfield, Sylvia Plath e Emily Dickinson. Aos 19, começou a cursar Letras na PUC-RJ, além de traduzir e escrever. Tornou-se uma espécie de musa da geração mimeógrafo, que distribuía poesia em folhas de ofício grampeadas, saídas das máquinas das universidades. Logo Ana começou a ser publicada pelos jornais alternativos e revistas e para depois aparecer em edições independentes. Seus livros, sempre pequenos, tinham o poder de multiplicar-se e podiam ser encontrados não somente no Rio de Janeiro. Enquanto isso, a autora fazia mestrado em comunicação na UFRJ e em tradução na Inglaterra. No ano de 1980, publicou o livro de crítica Literatura não é documento e, em 1982, A teus pés (1982), que reunia três livros independentes anteriormente publicados: Luvas de pelicaCorrespondência completa Cenas de AbrilA teus pés, publicado pela Brasiliense em 1982, é, na verdade, uma série de fragmentos que misturam poesia, cartas e diários em linguagem confessional. É leitura obrigatória em diversos concursos vestibulares pelo país.
Percebo que o lance de notações tipo agendinha tem a ver com certa briga entre fora e dentro, registro e psicologia, cenografia e interioridade. Registrar com um muxoxo de quem não pudesse derramar. Mas para não ficar neo-realista só vale se a tensão passar. Tem mais aí? Ai, um batonzinho.
Ana teve outros volumes publicados após sua morte em 1983. Há Critica e tradução, um volume de 464 páginas lançado pela Ática em 1999 e que é outra reunião de livros menores — Escritos no RioEscritos da Inglaterra e Literatura não é documento —  e que inclui uma tradução anotada do célebre conto Bliss, de Katherine Mansfield. Sobre traduções, ela escreveu:
A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (…) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia em geral, não existe entrelinha. (…) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?
Apesar do fato de a palavra “marginal” parecer adequar-se muito pouco a esta mulher do século XIX, disfarçada em século XX, o periférico acompanha-a mesmo, hoje, 29 anos após sua morte. Ao lado dos estudos acadêmicos e livros a ela dedicados, além dos artigos publicados em revistas e jornais, uma consulta ao Google fará com que nos deparemos com algo muito mais forte e vivo: um número anormal de blogs que ora lhe são dedicados inteiramente ou com posts onde ela é citada com devoção. Nestes posts, o lado confessional de sua literatura é explorado nos mínimos detalhes.
Noite de Natal
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera
(A teus pés, pág. 62)
Ana Cristina, ou Ana C., como é mais conhecida, não deixou bilhete de despedida. Deixou poesias. Sabe-se pouco dos motivos que a levaram ao suicídio. Ela recém voltara de Londres, estava deprimida, tentara matar-se dias antes afogando-se no mar, em episódio mal descrito pelos biógrafos, até chegar ao ato final no apartamento dos pais. Enquanto sua literatura desenha uma rarefeita fronteira entre o ficcional e o autobiográfico, suas fotos mostram uma moça muito sorridente. Quem conheceu Ana, fala de uma pessoa de poucas palavras, mas de expressão clara, cristalina. Heloísa Buarque de Hollanda foi uma das primeiras ensaístas a reconhecer o valor de seus trabalhos, “eles possuem um traço diferente, extremamente pessoal, que não dá para classificar de modo nenhum como marginália ou algo parecido”.
Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio”. (Ana Cristina Cesar, Inéditos e Dispersos).
Seus leitores procuram textos que se relacionem com seu suicídio. Mas qualquer certeza a esse respeito é fantasia. Ana desenvolveu alguns de seus melhores trabalhos ao traduzir as poesias de Sylvia Plath (1932-1963), outra poetisa, outra suicida. Um destino muito igual numa idade muito igual o dessas duas mulheres que não conseguiram viver, mas expressaram sua dor da forma mais pura possível.
Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno maior
Ou é um lapso sutil?
Ainda provocando paixões por seus textos e poemas, esta filha da poesia marginal dos anos 70 traz e atualiza  dois gêneros usualmente considerados literatura menor: a carta e o diário. São retalhos nostálgicos — quase sempre sucintos, sem beletrismo e adjetivação — que usam o coloquial, mas também exploram de forma muito original a interação entre o sujeito lírico e seu leitor implícito.
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.

Inéditos e Dispersos é outra coletânea que a Brasiliense publicou no início dos 80. Há passagens esplêndidas, mas o livro é muito irregular, deixando claras a limpeza de suas gavetas e papéis. Até bilhetes foram publicados. Ana certamente cortaria muita coisa deste livro.
Ao lado dos textos que estão sendo publicados neste fim de semana nos jornais e sites, está marcada para o próximo dia 6 de junho [2012], às 20h, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, uma homenagem a Ana Cristina Cesar. Ana 60 Cesar será um bate-papo entre o poeta Armando Freitas Filho, que foi grande amigo de Ana C., e a escritora e professora de teoria crítica da cultura da UFRJ Heloisa Buarque de Hollanda, de quem a homenageada foi aluna. O evento, aberto ao público, será gratuito, com distribuição de senhas a partir das 19h.
Olho muito tempo o corpo de um poema
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
Ausência
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina)* 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Cântico Negro, de José Régio - Por Paulo Gracindo

As "Celebridades" e a Vulgarização da Profissão de Ator

Sarah Bernhardt , esta sim uma celebridade que atravessa os séculos


Quando eu comecei a fazer teatro, há meio século atrás nem havia a indústria de conteúdo para teledramaturgia. Uma ou outra novelinha. Era teatro mesmo. E com isso todos os atores se conheciam, todos nós sabíamos quem era quem na profissão.

Profissão aliás que se escolhia por pura vocação, já que era reprimida em sua maioria pelos familiares, e amigos. Ser ator ou atriz era quase equivalente a ser promíscuo e marginal.

Nos dias de hoje são tantos e tantos atores e atrizes jovens chegando ao mercado que a gente não tem nem tempo de conhecer um e já temos outros chegando. Mal sabemos os nomes de uma pequena percentagem. E a maioria aparece e desaparece como caudas de cometas.

Houve a época dos modelos. Todos queriam ser modelos, depois descobriram que modelo era pouco, era preciso ser ator para ter mais visibilidade (há uma crise de identidade em cada indivíduo na sociedade de hoje) .

Conclusão: são milhares de jovens, sobretudo  no Rio e SP, quase todos com o mesmo biótipo: sarados ou esquálidas, rejeitando glúten e tomando suprimentos.

Vulgarizou-se a profissão, no sentido de tornar-se popular. Nos tornamos hoje mais próximos de um comportamento social tipo executivos de multinacionais que de românticos criadores.

Basta um vestido novo, ou um casamento de marketing e a pessoa torna-se celebridade do mundo artístico, maior celebridade até que Sarah Bernhardt ou Laurence Olivier.

Mas, é assim mesmo, é a tal sociedade de massas. A industrialização; a beocidade do neoliberalilsmo; da economia de mercado.

E a gente vai levando, com a certeza de que das milhares de parreiras que vão brotando a cada dia pela mídia de consumo algumas afinal darão boas uvas para um bom vinho.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Nas coxas


Senti o alerta de mensagem vibrar, levei a mão ao bolso da calça e percebi que estava sem o celular. "Céus", pensei -não sem um ligeiro terror, desses que nos acometem nos sonhos um segundo antes de virarem pesadelo- "minha coxa teve uma alucinação".

Faz sentido. De uma hora pra outra, depois de 300 mil anos exercendo sobre a Terra a única função de nos levar de cá pra lá, as coxas viraram um receptor tátil de todas as tranqueiras que, com uma vibraçãozinha, surgem no nosso telefone.

"Chegando em cinco", escreve um amigo (que chegará em 25) no WhatsApp: brrrrrr. "Dentista amanhã, 16:30", avisa o Google Agenda: brrrrrr. "Acordado?", escreve por SMS, no meio da madrugada, o(a) ex-namorado(a): brrrrrr. "21 provas de que Zeca Pagodinho é a pessoa mais legal do Brasil", postam no Facebook, tagueando, sabe-se lá porque, o seu nome: brrrrrr.

Nada mais justo que esses 72,54 cm2 de pele (se você tiver um iPhone; caso tenha um Samsung Galaxy, são 91,12 cm2), até então praticamente surdos-mudos, entrassem em parafuso ao serem subitamente alçados à categoria de telex da epiderme. É mais ou menos como pegar, sei lá, o Maguila e dizer: a partir de agora você é o âncora do "Jornal Nacional".

Imagino o rebu lá no cérebro, assim que telefones passaram a vibrar no bolso. Os neurônios responsáveis pela sensibilidade das coxas deviam estar todos deitados em redes, fumando no narguilé e assoviando Bob Marley.

Só eram convocados ao trabalho quando você dava um colo ou usava o laptop. Mesmo nessas horas, era o emprego mais fácil do mundo, bastava gritarem lá pra dentro: "Aí, galera, avisa que deitou alguém!", "Aí, galera, tá rolando laptop! Tá meio quente!" e voltar pra pasmaceira. Então surgiram os celulares e esses neurônios obesos se viram obrigados a saltar do coxilo pro Iron Man -sem escalas.

Agora mesmo, enquanto você lê esta crônica, uma revolução acontece na sua massa cinzenta. Há anúncios em todas as páginas da "Gazeta do Córtex": "Coxa contrata neurônios. Áreas: epiderme, terminações nervosas, medula, cérebro". Novos escritórios estão sendo construídos, baias são abertas, faixas de ônibus e de bicicleta são pintadas nos nervos, para que as células consigam chegar mais rápido ao novo emprego. Já há quem arrisque, no Twitter do lobo frontal: "A coxa é o novo olho".

Fico imaginando o que acontecerá com esses centímetros quadrados do nosso corpo em uns cem mil anos. Ficarão mais sensíveis do que as pontas dos dedos, os mamilos, o clitóris e a glande? E a parte do cérebro responsável por eles, de pequena choupana cheia de redes se transformará num ABC Paulista neuronal? Seremos capazes de ler braile com as coxas? Gozar com as coxas? Prever a chuva, dar a temperatura, dizer "tô sentindo que cê não tá legal hoje" com as coxas?

Sei lá. O que sei é que enquanto nada disso acontece, numa tarde abafada de 2014, sobrecarregada, estafada, zumbi, minha coxa alucina, recebendo sinais do além. Ou talvez seja só o cérebro, chefe pentelho, conferindo: "Acordada?".

KUNG FURY



Legendas: V.C.O.

Kung Fury é um filme de comedia e ação inspirado nos anos 80.


O filme foi financiado através do Kickstarter.

Conta a história de Kung Fury, um policial renegado e lutador de Kung Fu que viaja no tempo para matar seu inimigo, Hitler.

O filme apresenta nazistas, dinossauros, vikings, frases prontas e de efeito.

A campanha, que foi lançada em dezembro de 2013 foi apoiada por mais de 17.000 pessoas que, juntos, doaram mais de US$ 630.000,00.

Escrito e Dirigido por David Sandberg.