Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

MANUAL DO HOMEM COMUM



Falar baixinho,
Sempre,
Pois é tão agradável aos ouvidos e a percepção.
Sorrir que é mostrar a alma ao próximo.
Dar bom dia,
O que tem a força de mil vulcões.
Olhar nos olhos e se ver no outro:
O outro vendo-se em você.
Ceder a vez,
Sempre que necessário:
A presa é inimiga da pressão.
Não ter certezas,
Pois são tantas as dúvidas
E é tão grande o ego.
Ser tolerante, uma utopia?
Sejamos teimosos,
Tentemos ao menos.
Respeitar os idosos,
Que são mais sábios que nós
E o nosso reflexo daqui a instantes.
Indignar-se com a injustiça,
Pois a ganância de poucos a alimentam.
Odiar as bombas que nada constroem.
Amar as flores que enfeitam nossos olhos.
Acariciar o cão
Com a mesma intensidade com que eles nos acariciam.
Emocionar-se com uma velha canção
Regressando ao passado
E tornando o presente dançante.
Compartilhar os livros,
Pois fechados os mesmos apodrecem
Qual o alimento não consumido.
Escutar, ouvir,
Que são sinônimos de sabedoria.
Se preciso, opinar, sem pressas, sem vaidade.
Não reter conhecimentos qual um muquirana.
Amar, até as últimas consequências, a paz,
Que tudo constrói.
Evitar,
Até a morte,
A guerra,
Que é sinônimos de mortes.
Plantar e dividir o fruto com o próximo.
Regar comunitariamente.
Colher junto com outras mãos
E assim formar uma corrente que liberta.
Soltar os pássaros das gaiolas
E vê-los bailar sob a liberdade.
Libertar os animais dos circos e zoológicos,
Que como nós odeiam as prisões.
Respeitar as diferenças:
Sempre, sempre e sempre.
Ser uno, mas divisível.
Ser paradoxal mas convergente.
Ouvir Beethoven e Spock.
Amar os gay e os não gays.
Ser feminista
Indo ao encontro afável de nossa metade mulher.
Ser negro, índio, amarelo
E buscar na miscigenação o orgulho de sermos iguais.
Ser deficiente
E na medida do possível cooperar com a sociedade.
Um pedido pessoal:
Abrir a porta dos banheiros aos cadeirantes:
Dos bares, dos hotéis, dos motéis,
Afinal também somos boêmios, viajantes e amantes.
Ler que é viajar com o pensamento.
Inventar,
Sempre buscando a excelência do servir
A quanto mais gente melhor.
Viver,
Pois não temos outra saída
E as vezes é bem gozoso.
Dar as costas as culpas e os pagamentos,
Excluindo as cobranças das religiões e dos banqueiros.
Não temer a morte
Que é o caminho reto da vida.
Não temer,
Principalmente,
A plenitude da vida em acolhimento.

(Itárcio Ferreira)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

POUCAS COISAS BASTAM


Poucas coisas bastam:
Eu, você, um beijo, uma canção,
A noite, o vinho, o êxtase.

Poucas coisas bastam?
Sim, um amigo, um poema, saúde, educação,
O pão, a arte, a justiça.

Poucas coisas bastam:
Sorrisos, abraços, flores,
Uma mão, caminhadas, crianças, o campo.

Poucas coisas bastam?
Sim, o socialismo!

(Itárcio Ferreira)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Explode a bomba semiótica da não-notícia

Por Wilson Roberto, via Cinema Secreto: Cinegnose

Apesar das previsões catastróficas a Copa do Mundo foi um evento bem sucedido. As grandes manifestações de rua declinaram. E as eleições se aproximam, mostrando uma oposição política cada vez mais inepta. Pressionada, a grande mídia lança a “piece de resistance” do seu arsenal de bombas semióticas, testada durante a Copa: a não-notícia, blefe turbinado pelos “efeitos de realidade” - estratégia semiótica de produzir uma sensação de verossimilhança através de imagens e sons propositalmente “sujos” que, numa televisão de alta definição, ganha uma conotação “investigativa” ou de “denúncia”. E as supostas denúncias da revista “Veja”, repercutidas de imediato pela grande mídia, sobre a “farsa da CPI da Petrobrás” são os primeiros estilhaços das não-notícias na opinião pública, apontando a necessidade urgente de combate a um novo analfabetismo: o midiático-visual.

Em plena televisão digital de alta definição se repetem em telejornais e congêneres imagens granuladas em preto e branco, câmeras com imagens desfocadas e trêmulas e infográficos toscos reproduzindo supostos diálogos telefônicos e microfones escondidos com áudios sujos e trechos inaudíveis acompanhados de legendas.

Na medida em que as eleições aproximam-se, a Copa do Mundo foi organizacionalmente bem sucedida (apesar das previsões catastróficas), as grandes manifestações de rua acabaram e a oposição política ao Governo se demonstra cada vez mais inepta, a grande mídia lança a piece de resistance do arsenal das bombas semióticas: o blefe das não-notícias, turbinadas por uma estratégia que, em tempos de paz, a televisão sempre utilizou de forma discreta e esparsa: aquilo que o semiólogo francês Roland Barthes chamava de “efeitos de realidade” – detalhes semioticamente estratégicos para produzir uma sensação de verossimilhança principalmente em telejornais – leia BARTHES, Roland, S/Z  - Um Ensaio, Edições 70, 1999.


Harmonizar detalhes autenticadores que criam uma espécie de ilusão de ótica de verdade que passa a ser mais importante do que o mero fato de que esses detalhes existam.

O teste na Copa do Mundo


Essa nova bomba semiótica começou a ser testada durante a Copa do Mundo. A grande mídia percebeu desde a partida inaugural na Arena Corinthians que o evento seria um frustrante sucesso – tanto é verdade que depois de uma semana de Copa, começou a transferir para a mídia internacional a responsabilidade pelas previsões negativas, saindo de fininho pela porta dos fundos. Por isso, começou a testar uma nova modalidade de bomba: a não- notícia.

Esforço investigativo! TV Globo
descobre cambistas no Maracanã na Copa
Quem não se lembra do telejornal do SPTV que colocou seus “parceiros” para irem de carro à Arena Corinthians em dia de jogo só para confirmar a recomendação contrária da CET. Presos no congestionamento, os “parceiros” registraram imagens em tom de “denúncia”, usando efeitos de realidade (câmeras trêmulas, imagens desfocadas, áudio picotado etc.). Ou então as imagens precárias e granuladas em PB de microcâmeras para denunciar a grande revelação nas imediações do estádio do Maracanã que comprovaria o caos da organização da Copa no Brasil: cambistas (ah, vááá!!!), figura tão comum no futebol brasileiro quanto pasteleiros nas feiras livres.

A bomba semiótica da CPI da Petrobrás


Pois agora, depois do período de testes, essa nova modalidade de bomba semiótica entra em ação para valer na última edição da Veja e repercutida, como de hábito, pela grande mídia: a “Grande Farsa da CPI da Petrobrás” – o “vazamento” das perguntas que seriam feitas pelos senadores aos investigados.

E a prova do “crime” repetida nos telejornais: imagens precárias (isso é retoricamente importante) de 2 min40 seg feitas por uma caneta espiã onde um chefe da Petrobrás e o advogado da estatal discutem estratégias dos convocados que iriam depor na CPI. E para a revista, a estratégia se consistia em soprar aos convocados perguntas que os senadores fariam.

Agora, o esforço investigativo da
"Folha": descobriu o media training
Se na escaladas das grandes manifestações de rua iniciadas em junho do ano passado presenciamos as estratégias dedissimulação da grande mídia (turbinar os acontecimentos através de estratégias de edição, montagem e angulação de textos e imagens), agora com essa nova bomba passamos a uma tática radical: a simulação ou blefe – a revista diz que possui algo que na verdade não existe.

O que a grande mídia “descobriu” foi uma prática corporativa muito comum nas grandes empresas nos seus relacionamentos com a mídia: o media training, aliás, fonte de complementação de renda para muitos jornalistas: treinar empresários e executivos a lidar com as perguntas de repórteres e saber se posicionar diante de câmeras e microfones. E mais: o media training da Petrobrás se baseou em informações públicas disponíveis no site do Senado Federal – perguntas centrais (que vão gerar outras perguntas durante as sabatinas), nomes dos convocados e documentos que servem de base para a investigação.

O sexo dos anjos e o analfabetismo midiático-visual


Esse episódio lembra também a grande “revelação” da mídia após a vitória de Lula nas eleições de 2002: a imagem do candidato na campanha foi criada por um marqueteiro chamado Duda Mendonça. Num esforço investigativo a grande mídia “descobriu” o sexo dos anjos: a existência do marketing político, tão comum na chamada democracia Ocidental quanto a existência de hóstias em igrejas e divulgou isso como uma espécie de “denúncia” de um suposto artificialismo de Lula.

A bomba semiótica da não-notícia lembra a gíria jornalística do “dar pernas prá notícia”. Mas aqui temos algo mais: uma sofisticada articulação de efeitos de realidade para a criação de impacto.

O ponto de partida do blefe dessa bomba é, como não poderia deixar de ser, a ignorância do leitor/espectador de subsetores midiáticos especializados como omídia training e o marketing político – e por isso se faz cada vez mais necessária uma espécie de alfabetização midiática-visual como disciplina curricular para além da alfabetização tradicional.

A semiótica dos efeitos de realidade


Vídeos de "denúncias" fazem metalinguagem de
programas como "Profissão Repórter" da Globo
A retórica dessas “denúncias” é semioticamente tão carregada ou canastrona que acaba expondo duas realidades: o desespero da grande mídia diante de uma oposição política tão impotente e a incapacidade de amplos setores da opinião pública em perceber o artificialismo de notícias construídas com operações linguísticas tão artificiais. Sem muito esforço analítico, de imediato se percebe os seguintes efeitos de realidade recorrentes nas notícias:

(a) em um ambiente televisivo com imagens em alta definição, telejornais com cenografias futuristas e muita metalinguagem das sofisticadas tecnologias de edição e transmissão, paradoxalmente imagens “sujas”, preto e branco, desfocadas e tremidas ganham um inesperado efeito de realismo. Algo como o movimento back to vinil no rock e o som sujo de guitarras grunge em um ambiente de produção musical sofisticado das grandes gravadoras. O realismo vem de imagens supostamente produzidas em condições precárias, difíceis, dando um tom “investigativo” ao trabalho jornalístico.

No fundo estes vídeos de denúncias são metalinguagens de programas globais como Profissão Repórter de Caco Barcelos ou Cena Aberta dirigido por Guel Arraes, Jorge Furtado e Regina Casé. São herdeiros da onda da estética reality showque domina a TV mundial contemporânea. O pesquisador norte-americano Robert Stam já descrevia como os atuais telejornais se transformavam ao narrar notícias em linguagem ficcional cinematográfica onde os apresentadores são atores (com estudadas conotações de solidez e sobriedade) e as escaladas transformam-se em teasers hitchcockianos. Mas hoje vai além dos atributos da ficção: eles são agora, literalmente, ficção – leia STAM, Robert, “O Telejornal e Seu Espectador”, em Novos Estudos Cebrap número 13, outubro, 1985, p 74-87;

A estética da denúncia-dossiê:
as transcrições de áudios
(b) A precariedade do áudio das canetas espiãs ou microcâmeras digitais confere ainda mais o tom “investigativo” ou de “denúncia”. O curioso é que mesmo quando a voz é audível, são inseridas legendas para criar um evidente efeito de realismo documental;

(c) Infográficos toscos onde didaticamente se transcrevem conversas telefônicas ou áudios de microfones escondidos com muitos chiados e ruídos (o precário como efeito de realidade). Os infográficos retoricamente dão um tom de dossiê top secret;

(d) O tom patibular ou de gravidade dos apresentadores de telejornais (por exemplo, os olhos apertados de William Bonner e as sobrancelhas erguidas da Patrícia Poeta no Jornal Nacional). O mais importante é a ambiguidade de declarações como “procurado pela reportagem o diretor fulano de tal não foi encontrado...” sugerindo o ardil do acusado em fuga. Se o acusado emite uma nota pública de resposta às supostas denúncias, como a Petrobrás o fez, ela é lida como nota impessoal. A resposta anunciada de forma burocrática evidentemente fica em desvantagem diante dos efeitos de realidade construídos pela acusação;

               (e) Pessoas dando depoimento para as câmeras e em contra-luz com a voz distorcida para impedir a identificação. Um poderoso efeito de realidade, pois dá uma conotação criminógena a qualquer suposta denúncia, além de criar a moderna estética do "jornalismo investigativo";

(f) O efeito de realidade da consonância: o Jornal Nacional cita a revistaVeja e, logo depois, outros telejornais e portais de Internet repercutem a citação do telejornal global. Isso cria o efeito de acumulação, consonância e onipresença: se todas as mídias dão a notícia, então é real. Essa estratégia semiótica é comum nos telejornais quando da cobertura de acontecimentos importantes e a citação da sua repercussão na imprensa internacional. Efeito de realidade = credibilidade.

Portanto a bomba semiótica da não-notícia revela não só o problemático analfabetismo midiático-visual do público que se torna presa fácil dos fragmentos da explosão dessa bomba, como também a natureza ilusória dos telejornais atuais: o critério de verdade foi substituído pelo de credibilidade.

O pesquisador Robert Stam já apontava que todos os telejornais são agradáveis – eles são construídos para nos dar o prazer da ficção. Não importa se as notícias são boas ou más, elas são construídas para nos proporcionar o prazer da linguagem ficcional, como em um filme ou novela – narrativas carregadas de efeitos de realidade para que o roteiro faça o espectador esquecer, nem que seja por duas horas, que o que ele vê não é real. Por isso os efeitos de realidade criam muito mais credibilidade do que a certeza de que estamos vendo a verdade dos fatos – se a TV falou, então é verdade.

Por isso, essa bomba semiótica da não-notícia, talvez a última do arsenal da grande mídia, seja a mais frágil de todas: o efeito do prazer ficcional é de curto prazo porque é especular e catártico – um prazer que se consome após a sua exibição, ainda mais em momentos em que a credibilidade da grande mídia tradicional experimenta declínio na concorrência com as mídias digitais.

sábado, 2 de agosto de 2014

APOCALIPSE - CANTO I


Líbia destruído e dividido, 3 anos após a invasão do l

Quatro cavaleiros habitam meu coração:
Guerra
                     Peste
                     Fome
                     Morte.

Não sei se o fim está próximo
ou se o auge da vida se anuncia
             nestas auroras de ferro.

Mas, quando morrer o corpo,
que seja em sala com espelhos.

Quero arder,
gozar o momento da vitória final do guerreiro.

Quando morrer o corpo,
que seja em roupas brancas,
             limpas,
que a alma não sofra
com a sujeira ainda tão próxima.

Quando por fim apodrecer o corpo,
e todo prazer da morte for gozado,
que seja queimado

para que não haja lembranças terríveis.

(Itárcio Ferreira)


quarta-feira, 30 de julho de 2014

APOCALIPSE - CANTO IV

Criança palestinas assassinadas por israel


E virão bombas tantas como os grãos de areia
             do planeta.

E mais gente morrerá do que as que morrem
                           de fome
                           no terceiro mundo.

Do alto das nuvens,
             naves negras,
rirão os sete anjos
-     ou sete demônios? –
sete malditos mercenários.

Nossos corpos em combustão...

            

(Itárcio Ferreira)

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ESPELHO

Dispersos, caminhávamos de mãos dadas,
outras vezes apenas o olhar nos reunia.

O meu coração era como a mão do guerreiro,
eras tu a minha arma.

O guerreiro ama a sua arma
como um deus à sua criatura.

Eu te moldara dispersa,
por isso amavas o silêncio na sua essência
e nos seus mais vulgares momentos.

Dispersos,
caminhávamos livres, como se fôssemos
o fogo,
eternos como o pássaro fênix.

As tardes e seus tédios
não nos pertenciam,
tal a Via Láctea. 


Um dia paramos
e nos vimos defronte do Espelho
qual o Livro da Verdade.

Hoje as minhas mãos não tocam as tuas.


Oh pesadelo a existência!

(Itárcio Ferreira)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Revisitando o documentário "Muito Além do Cidadão Kane"

Por Wilson Roberto Vieira Ferreira, Via Cinema Secreto: Cinegnose

Aos 50 anos do golpe militar de 1964 é necessário revisitarmos o documentário “Muito Além do Cidadão Kane” (Beyond Citizen Kane, 1993), dirigido por Simon Hartog para o Channel Four da Inglaterra. A Globo venceu na justiça e o filme foi banido do País, mas acabou assistido e debatido nos meios universitário e acadêmico. Tornou-se um documento fundamental para conhecermos o Brasil e a nossa TV. Ficou famoso internacionalmente pelas suas denúncias sobre as manipulações do telejornalismo da Globo e o favorecimento econômico da emissora de Roberto Marinho desde o início do regime militar. Mas o documentário de Hartog diz mais, que só o olhar de um estrangeiro poderia ver: os detalhes que contribuíram para a Globo formar a primeira rede de TV do país, capaz de criar um conteúdo tão genérico que passou por cima da diversidade cultural e regional brasileira. “A estranha combinação” do entretenimento dominical, a TV em cores e o projeto de modernidade e integração nacional dos militares e o condicionamento da vinheta do plim-plim e da linguagem do globês que alterou a identidade idiomática do brasileiro.

Às vésperas dos 50 anos do golpe militar de 1964, é oportuno fazermos uma revisita ao lendário documentário televisivo britânico Muito Além do Cidadão Kane. Produzido e distribuído pelo canal privado Channel Four em 1993 e dirigido por Simon Hartog, o documentário foca as relações entre a grande mídia e o poder no Brasil e detalha a posição monopolista da rede Globo que cresceu à sombra do regime militar. Analisa a figura do proprietário Roberto Marinho, suas relações políticas com o Estado (aproximando-o do personagem Charles Foster Kane, personagem criado por Orson Welles para o filme Cidadão Kane de 1941) e o poder da emissora em formar e manipular a opinião pública.

A ideia da produção do documentário surgiu quando Hartog visitou o Brasil nos anos 80 e ficou impressionado com o império midiático da Globo, Roberto Marinho e o seu pragmatismo político. Hartog  fazia parte de um grupo de cineastas de esquerda da London Coop. Antes de produzir Muito Além do Cidadão Kane ele já havia realizado Brazil: Cinema, Sex and the Generals  (1985) sobre o papel político das pornochanchadas na época do regime militar. Para os amigos, Hartog confidenciava a surpresa pelos brasileiros até então nunca terem feito um documentário sobre o poder da Globo.

Muito Além do Cidadão Kane ficou famoso nos meios universitários e acadêmicos pelas denúncias de manipulação das notícias (o desprezo pelas “Diretas Já”, a manipulação da edição do debate entre Collor e Lula em 1989 etc.) e por descrever didaticamente as relações simbióticas entre os interesses econômicos da Rede Globo e os políticos da ditadura militar (1964-1985).

Sem falar as batalhas judiciais que envolveram o documentário, começando no Reino Unido que fizeram adiar em um ano o seu lançamento: a Rede Globo contestou a produção do Channel Four devido ao uso de fragmentos da programação da emissora. E o banimento no Brasil com apreensões de cópias no MAM/RJ e no Museu da Imagem e do Som de São Paulo em 1994.

Revisitando Muito Além do Cidadão Kane percebemos que Simon Hartog quis dizer muito mais: seu olhar de um estrangeiro originário do Reino Unido onde a maior emissora (a BBC) possui controle público revela o espanto ao ver um país onde a maior emissora é privada e que não só cresceu fora do controle do Estado como também interferiu em momentos cruciais da história política nacional.

Os fatores determinantes políticos (o acobertamento pelos militares das origens ilegais da emissora com o acordo Globo/Time-Life em 1967 e a liberalidade com que foi tratado os negócios da Globo durante o regime militar), econômicos (a concentração do mercado publicitário na TV) e pessoais (a origem familiar de Roberto Marinho estava no jornalismo) apenas explicam parcialmente o sucesso de uma emissora que entrou na adolescência do mercado televisivo brasileiro e deu-lhe um novo rumo.

As bases imaginárias da construção de uma rede


"Olimpíadas do Faustão" e "Fantástico":
a "estranha combinação no lazer do domingo.
Uma das chaves da construção de uma
rede nacional de TV
Tudo isso seria insuficiente se a grade de programação da emissora (que o documentário dá destaque à grade dominical), a sua linguagem e o chamado “padrão Globo de Qualidade”, não tivessem penetrado tão profundamente no psiquismo do brasileiro. A grade formada pelo trinômio Telejornalismo/Novelas/Futebol e a linguagem televisiva que praticamente recriou a língua portuguesa (“do português ao globês”, como fala o publicitário Washington Olivetto a certa altura no documentário) foram as verdadeiras bases imaginárias que ajudaram a consolidar um inédito sistema de comunicação em rede via satélite.

O que caiu como uma luva no projeto do regime militar de integração nacional através da unificação cultural e a construção de um ideal de modernidade onde a televisão colorida teria um papel-chave.

O documentário de Hartog inicia mostrando os números do monopólio da Rede Globo: números de emissoras afiliadas, alcance no território nacional e concentração das verbas publicitárias. Colocados esses números o documentário inicia a investigação do por que desses números impressionantes.

E não é por acaso que dá destaque ao conteúdo da programação dominical com as “olimpíadas bobocas” do Faustão e o “carro-chefe” do Fantástico em um “domingo típico com uma estranha combinação de elementos” – o mix de notícias policiais sobre estupradores, musicais, Disneyworld e matérias sobre as próprias telenovelas da Globo. Ao mesmo tempo mostra como “a Publicidade era melhor que o País” ao oferecer nos intervalos publicitários produtos e serviços que a maioria dos brasileiros não podiam consumir.

Simon Hartog toca no ponto nevrálgico do sucesso da integração nacional por meio da construção gigantesca rede de televisão: em pleno regime de exceção, AI-5 e censura, a popularização da TV dava às pessoas uma impressão de igualdade, uma aparente socialização integral, sem barreiras e liberdade em pleno espaço privado da sala de jantar. E o domingo com o show de variedades numa “estranha combinação” reforçava essa impressão de variedade e liberdade de oferta de conteúdos.

Maria Rita Kehl no documentário: a repetição do
mito do "self made man" nas novelas da Globo
A TV cumpria a importante função de cimento ideológico do domingo que preparava o espírito para enfrentar a semana que se iniciava – como até hoje. E a oferta publicitária de bens e serviços caros só reforçava a ideologia meritocrática que as telenovelas exibiam em horário nobre (como fala a psicanalista Maria Rita Kehl no documentário “a repetição do mito do self made mando princípio do capitalismo”). Os produtos se oferecem para você na tela da TV. Basta você vencer na vida para comprá-los. Ideologia meritocrática que ocuparia papel central na mentalidade da nova classe média que surgiria com o chamado “Milagre Econômico” do início da década de 1970.

Mas essa ilusão de participação através da TV enfrentava duas grandes dificuldades: uma de natureza técnica e outra cultural.

O efeito comportamental do “plim-plim”


Como o documentário destaca, em 1969 a Embratel acabara de inaugurar o sistema de microondas que permitiria à Globo emitir sinais simultâneos para Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. Eram as condições técnicas que permitiram a Globo lançar o Jornal Nacional, o primeiro telejornal brasileiro em rede. Mas, ao longo do tempo, a emissora enfrentou o problema técnico de sincronização das afiliadas: todas deveriam sair simultaneamente dos intervalos publicitários para a exibição do sinal emitido da matriz no Rio de Janeiro.

A solução técnica foi a famosa vinheta do “plim-plim” para avisar as afiliadas quando haveriam intervalos, e com isso todas estariam sincronizadas. Em 1971 José Bonifácio, o “Boni”, encomendou a vinheta que foi implantada durante o Festival Internacional da Canção. Boni queria um som que pudesse ser ouvido a quadras de distâncias para fazer a família voltar para diante da TV – o documentário relata que os telespectadores “salivavam” ao ouvir o som do “plim-plim” criado pelo austríaco Hans Donner.

Mas ao longo dos anos 1970 publicitários e profissionais de mídia começaram a perceber que a sonora vinheta, tornada ainda mais marcante com a remodelagem de Hans Donner em 1975, estava dificultando a recepção dos intervalos publicitários do horário mais caro da emissora. Simplesmente o sinal transformou-se num comando comportamental para os espectadores se levantarem, irem para qualquer cômodo da casa para retornarem depois do novo “plimplim”.

Sob um regime militar de censura e repressão política, sabendo-se que a TV Globo e Roberto Marinho tinham ótimas relações com os presidentes generais, tal percepção ficou restrita a boca pequena ajudando a manter os altos valores de inserção no horário nobre, vital para o crescimento da rede.
A vinheta do plim-plim nos anos
1970: efeitos comportamentais

O outro fator foi o cultural: a grande extensão territorial do País e diversidade de hábitos, gostos que faziam parte da história da população regional. Como o documentário destaca, ovideotape já havia acabado com as programas ao vivo e a produção local, facilitando a centralização da nova rede. Mas a diversidade cultural brasileira era uma barreira para estabelecer a fusão da identidade nacional com o mercado meritocrático publicitário.

O pesquisador Renato Ortiz dá o exemplo dos estados do tradicionalismo de estados como o Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Por exemplo, o interior gaúcho ainda possuía emissoras locais que se desenvolveram antes da fase da “integração nacional”, mantendo uma cultura tradicionalista que seria uma óbvia barreira de uma programação em rede. A solução foi o “toque” local a partir da construção da figura do “gaúcho”, da “mineiridade” e assim por diante, principalmente por meio dos personagens de telenovelas. As antigas identidades locais (hoje inviáveis em face das transformações sociais e do cosmopolitismo da sociedade de massas) foram como que desmontadas para depois serem reconstruídas por meio da culinária, arquitetura e “tradição” (no sentido museológico do folclore).

Do português ao “globês”


Mas o elemento decisivo da “integração nacional” (identidade nacional + mercado publicitário) foi a criação de uma arquinorma linguística, aquilo que o publicitário Washington Olivetto declara no documentário de que “o brasileiro em certo momento deixou de falar o português para falar o ‘globês’”.

Washington Olivetto: do português ao globês
A linguagem da TV Globo acabou criando uma nova identidade idiomática não tanto por alguma intencionalidade conspiratória, mas pela própria exigência técnica de um sistema de comunicação em rede cujo conteúdo generalista deveria ser compreensível a todas as diferenças regionais. Como criar um conteúdo generalista para um país que na verdade contém diversos países: culturas, tradições, falas etc.?

Muitos pesquisadores na área de Fonética e Fonoaudiologia estudam como a TV Globo criou uma arquinorma televisiva irradiada como, por exemplo, a limitação da pronúncia de vogais pretônicas e neutralizações de traços opositivos vocálicos aberto/fechado. Segundo a pesquisadora Regina Silveira , “as bases da pronúncia da arquinorma televisiva da Globo constroem, para seus telespectadores, representações mentais sonoras-tipo que ficam armazenadas em suas memórias de longo prazo, social” (veja SILVEIRA, Regina Célia P. “A Questão da Identidade Idiomática: a pronúncia da vogais pretônicas na variedade padrão do português brasileiro”).

Essa arquinorma passou a ser aceita pelo seu prestígio não tanto por ser “norma culta”, mas pela marca do simbolismo da modernidade dentro do projeto ideológico dos militares no qual a necessidade do monopólio Rede Globo estava inserido.



Embora seja uma produção de 1993, Muito Além do Cidadão Kane continua atual: embora o sistema político tenha se democratizado, o sistema midiático continua com a mesma estrutura idealizada pelo regime militar. Quando veremos a produção de Simon Hartog como um documento histórico de uma época que passou?

Ficha Técnica

Título: Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane)
Direção: Simon Hartog
Roteiro: Simon Hartog
Elenco: Leonel Brizola, Walter Clark, Chico Buarque de Hollanda, Dias Gomes, Lula, Washington Olivetto, Armando Nogueira
Produção: Channel Four
Distribuição: Channel Four
Ano: 1993
País: Reino Unido