"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Soneto dos Vinte Anos, poema de Lêdo Ivo
Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.
Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.
Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.
Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.
Lêdo Ivo
domingo, 14 de fevereiro de 2016
A Desforra da Titia (1995)
Diretor: Eduardo Quirino, Reinaldo Pinheiro
Sinopse: O filme resgata o universo das histórias
eróticas e sensuais do desenhista Carlos Zéfiro, criador nos anos 50 e 60 dos
famosos "catecismos".
sábado, 13 de fevereiro de 2016
ÉRAMOS FELIZES ALI NAS CAVERNAS, poema de Itárcio Ferreira
Éramos felizes ali nas
cavernas,
quando temíamos o deus
trovão
e ele existia.
Hoje, já pisamos na
lua
e em nada acreditamos,
tudo sabemos,
tudo podemos
descobrir,
mas a felicidade ficou
ali nas cavernas,
junto com o deus
trovão.
Visitem o blog do poeta: Itárcio Ferreira, poemas
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Mulheres de vestido, poema de Paulo Jonas de Lima Piva

Mulheres
de vestido
recolham-me, por favor, sob essa tenda pele
permitam-me livrá-las dessa calcinha branca
abraçar forte suas coxas
e com o nariz e os olhos em seus pelos
respirar o ar
e lamber a paisagem
que esse sol sisudo não permite eclodir.
Mulheres de vestido
protejam-me, por favor, sob esse tecido bunker
com seus joelhos
deixando-me beijar suavemente cada um deles
tocar como borboleta
entrar como surpresa
nesse olho lacrimejante
que esse sol estúpido jamais irá incandescer.
recolham-me, por favor, sob essa tenda pele
permitam-me livrá-las dessa calcinha branca
abraçar forte suas coxas
e com o nariz e os olhos em seus pelos
respirar o ar
e lamber a paisagem
que esse sol sisudo não permite eclodir.
Mulheres de vestido
protejam-me, por favor, sob esse tecido bunker
com seus joelhos
deixando-me beijar suavemente cada um deles
tocar como borboleta
entrar como surpresa
nesse olho lacrimejante
que esse sol estúpido jamais irá incandescer.
Visitem o blog do poeta: O Pensador da Aldeia
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Para os que virão, poema de Thiago de Mello
Como
sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Quero apenas, poema de Olga Savary
Além
de mim, quero apenas
essa
tranqüilidade de campos de flores
e
este gesto impreciso
recompondo
a infância.
Além
de mim
– e
entre mim e meu deserto –
quero
apenas silêncio,
cúmplice
absoluto do meu verso,
tecendo
a teia do vestígio
com
cuidado de aranha.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Anseios, poema de Florbela Espanca
Meu
doido coração aonde vais,
No
teu imenso anseio de liberdade?
Toma
cautela com a realidade;
Meu
pobre coração olha que cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A
doce quietação da soledade?
Tuas
lindas quimeras irreais,
Não
valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai,
vê lá bem, ó doido coração,
Não
te deslumbres o brilho do luar!...
Não
'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te
estar quietinho, triste monge,
Na
paz da tua cela, a soluçar...
domingo, 7 de fevereiro de 2016
sábado, 6 de fevereiro de 2016
O homem e seu carnaval, poema de Carlos Drummond de Andrade
Deus
me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O
pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus
me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
AOS QUE HESITAM, poema de Bertold Brecht

Você
diz:
Nossa
causa vai mal.
A
escuridão aumenta. As forças diminuem.
Agora,
depois que trabalhamos por tanto tempo
Estamos
em situação pior que no início.
Mas
o inimigo está aí, mais forte do que nunca.
Sua
força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível.
Mas
nós cometemos erros, não há como negar.
Nosso
número se reduz. Nossas palavras de ordem
Estão
em desordem. O inimigo
Distorceu
muitas de nossas palavras
Até
ficarem irreconhecíveis.
Daquilo
que dissemos, o que é agora falso:
Tudo
ou alguma coisa?
Com
quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora
Da
corrente viva? Ficaremos para trás
Por
ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo?
Precisamos
ter sorte?
Isto
você pergunta. Não espere
Nenhuma
resposta senão a sua.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
O poeta pede ao seu amor que lhe escreva, poema de Federico Garcia Lorca

Amor
de minhas entranhas, morte viva,
em
vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O
ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém
eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche,
pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
Tradução:
William Agel de Melo
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
domingo, 31 de janeiro de 2016
Opinião: Raimundo Carrero distingue o que é ser um escritor e um escrevente
Via Estante Literária
O post de hoje é mais uma opinião do escritor e crítico literário Raimundo Carrero (que já apareceu aqui em outros dois posts). Além de ser autor de sucesso, com livros aclamados pela crítica e pelos leitores – um público seleto e fiel -, Carrero faz um grande trabalho de incentivo à literatura, buscando entrar em contato com as gerações mais jovens de autores. Além dos manuais de escrita publicados e oficinas que ministra no Recife e em workshops por todo o Brasil, ele ainda nos dá alguns vislumbres – sim, vislumbres – da importância da literatura através dos artigos publicados em suas colunas de crítica literária (como as dos jornais “O Rascunho” e “Diário de Pernambuco”). Ele acredita que, com esforço e prática, um escritor pode atingir os mais elevados níveis de qualidade, sofisticação e estética literária. E mais importante: Carrero não ensina a escrever, ensina o ofício do escritor; tal qual um mestre artesão passa seus conhecimentos ao aprendiz, ele transmite suas experiências aos aspirantes a escritor. Vejam por si neste artigo publicado pelo Diário de Pernambuco:
O post de hoje é mais uma opinião do escritor e crítico literário Raimundo Carrero (que já apareceu aqui em outros dois posts). Além de ser autor de sucesso, com livros aclamados pela crítica e pelos leitores – um público seleto e fiel -, Carrero faz um grande trabalho de incentivo à literatura, buscando entrar em contato com as gerações mais jovens de autores. Além dos manuais de escrita publicados e oficinas que ministra no Recife e em workshops por todo o Brasil, ele ainda nos dá alguns vislumbres – sim, vislumbres – da importância da literatura através dos artigos publicados em suas colunas de crítica literária (como as dos jornais “O Rascunho” e “Diário de Pernambuco”). Ele acredita que, com esforço e prática, um escritor pode atingir os mais elevados níveis de qualidade, sofisticação e estética literária. E mais importante: Carrero não ensina a escrever, ensina o ofício do escritor; tal qual um mestre artesão passa seus conhecimentos ao aprendiz, ele transmite suas experiências aos aspirantes a escritor. Vejam por si neste artigo publicado pelo Diário de Pernambuco:
Ao longo da minha já envelhecida vida – são quase setenta anos, o que me surpreende – conheci muitos escreventes e poucos escritores. Não basta encher papel de tinta e colocar o nome na capa. É pouco, muito pouco, quase nada. Sobretudo quando não se registra uma só reflexão própria, um só comentário individual. Às vezes nem mesmo uma única palavra própria. Os escreventes são muitos, milhares e estão em todos os lugares. Pululam pelas esquinas e pelos becos. Mal sabem alinhar duas palavras. E mesmo quando sabem escrever bem, muito bem, ainda assim não são escritores. Quando muito, e com algum favor, escreventes.Tenho, por isso mesmo, um grande respeito ao título, e fico completamente arrasado quando me chamam de escritor. Estou longe, muito longe de ser um escritor, um verdadeiro escritor. Meus amigos até reclamam, mas não me sinto ainda um escritor. É preciso mais, muito mais, bem mais. Um verdadeiro escritor é aquele cuja palavra faz falta à sociedade. Escritores de verdade são, por exemplo, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, Gilberto Freyre, Maximiano Campos, e quase todos, ou todos os poetas da Geração 65. Poderia usar o verbo eram, mas insisto no são. Porque mesmo aqueles que morreram continuam escrevendo no silêncio da eternidade. Renato Carneiro Campos é escritor – mesmo sem um romance ou um livro de poemas. Sempre aos domingos é dia de ler Renato. Mesmo que a crônica não esteja nos jornais a lembrança de suas palavras me tornam mais humano.De minha parte, porém, sempre tenho a sensação de fracasso. Pergunto-me o que estou fazendo por aqui para que me chamem de escritor. É elogio ou insulto? Seriedade ou ironia? Não sei bem. Tenho muitos livros publicados, algumas traduções, motivo de mestrados e doutorados, sim, isso me torna um escritor? Sou capaz de entender um único ser humano? Posso transcender o espírito contemporâneo? Sou capaz de compreender o mendigo que cospe na calçada? Sou capaz de perdoar o insulto? Uma página minha pode acalmar a alma atormentada? Muitas vezes não quero acalmar, quero desesperar.Dizem os russos que Dostoiévski chegou perto de Deus. Não, eu não espero chegar perto de Deus. Seria estupidez demais. Bastaria sarar as chagas do mais coitado dos pobres mortais. Bastaria? Vejam que falsa humildade. Mas é assim que vejo o escritor. Capaz de estancar o sangue em hemorragia perpétua, de sarar a dor social dos humildes e derrotados, de alterar a rota da sorte. Sem dúvida dirão de mim que sou louco, estúpido, idiota. Mas preciso mudar o destino, para então me sentir escritor. E é isso, é isso que exijo de todos. Talentosos e não talentosos. Inspirados e não inspirados. Se é que existem mesmo talento e inspiração. Tudo que não presta é escrito em nome do talento e da inspiração. Ahhhhhhh…Por Raimundo Carrero
Publicado originalmente pelo Diário de Pernambuco, 11/01/16.
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