Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

À GLÓRIA DE WALT WHITMAN, poema de Antonio Miranda



"Então, é isso, a vida
         revelada enfim após
                  tantos espasmos e convulsões." WW
Eu, abjeto, confesso:
o conhecimento não pressupõe
a superação de problemas.

Eu, incestuoso
nivelo: construir é destruir
é mudar, tanto faz.
 
Eu, narcisista, como Whitman
concebo o homem
em estado puro.

Eu, anarquista
como o Barbudo democrata
panteísta
que só via o Todo
e ainda assim
desprezando regras morais.

Eu, imoral
diante da Morte celebrando a vida
— aquela vida que se reproduz e
perpetua-se
e rejuvenesce em outros corpos
feitos de pólen ou de
esperma
no ciclo infinito do universo.
 
Conhecimento da vida
da rua, do padecimento
— corpos possuídos, devorados
para a ressurreição
ou sucessão.
 
Formas que nascem e fenecem
que renascem
que não partam antes
que nelas deposite
o quanto trago acumulado.
 
Sêmen/te
o caminho do Oriente
o olho da serpente.
 
O sexo contém tudo, corpos, almas...
Sentidos, provas, pureza, leveza...
 
Eu, pedaço de Tudo
sofro a amputação
e protesto:
quero minha parte impura
confesso minha covardia
proclamo minhas limitações!!!
 
E teço o canto do mal
e comemoro essa parte de mim

Oh varar noites, vendavais, fome e desejo
recusas e atropelos, feito
árvores e animais.
 
É inscrever um poema
no coração da América
e na consciência do mundo
um poema-sujo
(que é o mais limpo de todos
como Gullar já demonstrou)
o anti-poema de Nicanor Parra
um hieróglifo, um código secreto
para os iniciados
e promover a leitura do Ser
em nossas entranhas e
entrelinhas.
 
Perverter os sentidos
em busca dos sentidos.
 
Velho amoral! Bruxo ianque!




Ilus. de José Campos Biscardi 
 
Extraído de PERVERSOS. Brasília: Thesaurus, 2003.

Rhaíssa Bittar - "Os Descendentes"

Rhaissa Bittar - "Pa Ri"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Três poema de Chicão (Francisco Antonio de Paula Machado)




         Maioridade
A punho,
Sob a vista de ninguém,
Sanciono e outorgo minha liberdade,
Faz sombra em grande parte da cidade,
O sol que não ilumina a todos,
Adentra em minha janela com alvará
de soltura,
Eu rebelada criatura,
Em paz submeto-me a Deus.


Relatividade das dores

Fica bem claro que somos diferentes,
Nascidos na mesma terra em outros
ventres,
Fica bem claro a relatividade das dores,
A dicotomia das cores,
O entendimento da lógica como
suporte da fé,
Fica bem claro que todo demônio é
anjo torto,
E todo santo já teve um pouco de
Lucifé.


Genoma

Imensidão regressiva
Doravante diminuta
Infinitamente restrita
O homem ganha forma robótica
Alteração genética
É criado em séries, réplicas
Ao gosto do criador
Dos plutocratas
Com a alma feita de lata
E coração indolor.


        Chicão
        
        Fonte: Antonio Miranda

A arte surreal e politicamente incorreta de Joan Cornellá (I)











quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Ettore Scola (1931-2016)

Ugly, Dirty and Bad .. Brutti sporchi e cattivi .. Ettore Scola 1976

Liniker - "Zero"

POEMA NACIONAL, poesia de Jorge Lopes


Poderia dizer
que o poema tem pressa
e acalenta em mim
essa inquietude,
fervendo minhas tripas.
Poderia dizer
que o poema tem fome,
espetada nos olhos da balconista.
Mas o poema é pouco,
para alcançar os homens
adormecidos em seus sonhos de medo;
o poema é pouco,
contra os militares e suas armas mortais,
contra a igreja e seu deus profano,
contra os sórdidos capitalistas
e latifundiários desse meu país.
O poema é muito pouco,
mastigando essa esperança brasileira.

Jorge Lopes

Samuel Barber - "Adagio for Strings"

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Reciphoto, poema de Samuca Santos


meus olhos hasselblad
dignificam esta cidade
mais que o surpreendente
cor de telha, nuvens chumbo
entre os dentes da manhã
meus olhos rolleyflex
emprestam romances de bossa nova
sussurradas as vozes ainda
dos camelôs operários e vagabundos
policiais sonolentos
prostitutas arrasadas
meus olhos japoneses, digitais
filtram a miséria
passam pelo photoshop
e agradeço à maré cheia
que esconde a lama
e mostra o mangue
meus olhos polaroid
de instantâneos efêmeros
enquadram barracas de frutas
e nem penso mais
nesta cidade de filhos da puta

Samuca Santos

Fotografias de Eduard Gordeev

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

ÉTICA DO LIVRO: OS 13 MANDAMENTOS

Ética do Livro: Os 13 Mandamentos

1 — Se pegou emprestado, devolva.
2 — Trate o livro alheio como gostaria que o seu fosse tratado. Não rasure, suje ou rasgue.
3 — Só pegue emprestado se for mesmo ler. Não jogue em um canto ou coloque em uma fila.
4 — Se perdeu, compre outro e devolva.
5 — Se pegou por impulso e sabe que não vai ler, devolva.
6 — Se vai pegar sucessivamente emprestado, está na hora de comprar seu próprio exemplar.
7 — Se for uma ferramenta de trabalho, seja rápido.
8 — Não pegue sucessivamente emprestados livros da mesma pessoa, sem devolver os anteriores.
9 — Não constranja seu próximo pedindo emprestado livros raros ou com valor sentimental.
10 — Não empreste livros que pegou emprestado.
11 — Demorar para devolver é o mesmo que não devolver.
12 — Esquecer de devolver é o mesmo que surrupiar.
13 — Não misture com seus livros.

QUADRILHA, poema de Itárcio Ferreira

 

Plagiando Drummond

Itárcio amava Emília que amava Itárcio, mas eram tão crianças.
E o amor não passou de uns verões em Pontas de Pedras.
O tempo, esta quadrilha, roubou-me a inocência.
De Emília nunca mais tive notícias, se casou, se amou, se morreu.
O amor, costuma vir visitar-me de tempos em tempos.
Mesmo sem ser convidado, deita-se em minha cama,
Abusa de minha intimidade, bebe minhas cervejas, faz dívidas que tenho que pagar.
Ah os agiotas! As amantes e o delírio.
Cansado, acostumou-se a abandonar-me, quando penso que o aprisionei.
Será a solidão minha penúltima morada?