Via Anton Gudim
"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
sábado, 23 de janeiro de 2016
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
À GLÓRIA DE WALT WHITMAN, poema de Antonio Miranda
"Então,
é isso, a vida
revelada
enfim após
tantos
espasmos e convulsões." WW
Eu,
abjeto, confesso:
o
conhecimento não pressupõe
a
superação de problemas.
Eu,
incestuoso
nivelo:
construir é destruir
é
mudar, tanto faz.
Eu,
narcisista, como Whitman
concebo
o homem
em
estado puro.
Eu,
anarquista
como
o Barbudo democrata
panteísta
que
só via o Todo
e
ainda assim
desprezando
regras morais.
Eu,
imoral
diante
da Morte celebrando a vida
— aquela
vida que se reproduz e
perpetua-se
e
rejuvenesce em outros corpos
feitos
de pólen ou de
esperma
no
ciclo infinito do universo.
Conhecimento
da vida
da
rua, do padecimento
— corpos
possuídos, devorados
para
a ressurreição
ou
sucessão.
Formas
que nascem e fenecem
que
renascem
que
não partam antes
que
nelas deposite
o
quanto trago acumulado.
Sêmen/te
o
caminho do Oriente
o
olho da serpente.
O
sexo contém tudo, corpos, almas...
Sentidos,
provas, pureza, leveza...
Eu,
pedaço de Tudo
sofro
a amputação
e
protesto:
quero
minha parte impura
confesso
minha covardia
proclamo
minhas limitações!!!
E
teço o canto do mal
e
comemoro essa parte de mim
Oh
varar noites, vendavais, fome e desejo
recusas
e atropelos, feito
árvores
e animais.
É
inscrever um poema
no
coração da América
e
na consciência do mundo
um poema-sujo
(que
é o mais limpo de todos
como
Gullar já demonstrou)
o
anti-poema de Nicanor Parra
um
hieróglifo, um código secreto
para
os iniciados
e
promover a leitura do Ser
em
nossas entranhas e
entrelinhas.
Perverter
os sentidos
em
busca dos sentidos.
Velho
amoral! Bruxo ianque!
Ilus.
de José Campos Biscardi
Extraído
de PERVERSOS. Brasília: Thesaurus, 2003.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Três poema de Chicão (Francisco Antonio de Paula Machado)
Maioridade
A
punho,
Sob
a vista de ninguém,
Sanciono
e outorgo minha liberdade,
Faz
sombra em grande parte da cidade,
O
sol que não ilumina a todos,
Adentra
em minha janela com alvará
de
soltura,
Eu
rebelada criatura,
Em
paz submeto-me a Deus.
Relatividade
das dores
Fica
bem claro que somos diferentes,
Nascidos
na mesma terra em outros
ventres,
Fica
bem claro a relatividade das dores,
A
dicotomia das cores,
O
entendimento da lógica como
suporte
da fé,
Fica
bem claro que todo demônio é
anjo
torto,
E
todo santo já teve um pouco de
Lucifé.
Genoma
Imensidão regressiva
Doravante
diminuta
Infinitamente
restrita
O
homem ganha forma robótica
Alteração
genética
É
criado em séries, réplicas
Ao
gosto do criador
Dos
plutocratas
Com
a alma feita de lata
E
coração indolor.
Chicão
Fonte: Antonio Miranda
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
POEMA NACIONAL, poesia de Jorge Lopes
Poderia
dizer
que o poema tem fome,
espetada nos olhos da balconista.
que o poema tem fome,
espetada nos olhos da balconista.
Mas
o poema é pouco,
para alcançar os homens
adormecidos em seus sonhos de medo;
o poema é pouco,
contra os militares e suas armas mortais,
contra a igreja e seu deus profano,
contra os sórdidos capitalistas
e latifundiários desse meu país.
para alcançar os homens
adormecidos em seus sonhos de medo;
o poema é pouco,
contra os militares e suas armas mortais,
contra a igreja e seu deus profano,
contra os sórdidos capitalistas
e latifundiários desse meu país.
O
poema é muito pouco,
mastigando essa esperança brasileira.
mastigando essa esperança brasileira.
Jorge Lopes
Fonte: Interpoética
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Reciphoto, poema de Samuca Santos

meus olhos hasselblad
dignificam esta cidade
mais que o surpreendente
cor de telha, nuvens chumbo
entre os dentes da manhã
meus
olhos rolleyflex
emprestam romances de bossa nova
sussurradas as vozes ainda
dos camelôs operários e vagabundos
policiais sonolentos
prostitutas arrasadas
emprestam romances de bossa nova
sussurradas as vozes ainda
dos camelôs operários e vagabundos
policiais sonolentos
prostitutas arrasadas
meus
olhos japoneses, digitais
filtram a miséria
passam pelo photoshop
e agradeço à maré cheia
que esconde a lama
e mostra o mangue
filtram a miséria
passam pelo photoshop
e agradeço à maré cheia
que esconde a lama
e mostra o mangue
meus
olhos polaroid
de instantâneos efêmeros
enquadram barracas de frutas
e nem penso mais
nesta cidade de filhos da puta
de instantâneos efêmeros
enquadram barracas de frutas
e nem penso mais
nesta cidade de filhos da puta
Samuca Santos
Fonte: Interpóetica
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
ÉTICA DO LIVRO: OS 13 MANDAMENTOS
Por Ademir Luiz
1
— Se pegou emprestado, devolva.
2
— Trate o livro alheio como gostaria que o seu fosse tratado. Não
rasure, suje ou rasgue.
3
— Só pegue emprestado se for mesmo ler. Não jogue em um canto ou
coloque em uma fila.
4
— Se perdeu, compre outro e devolva.
5
— Se pegou por impulso e sabe que não vai ler, devolva.
6
— Se vai pegar sucessivamente emprestado, está na hora de comprar
seu próprio exemplar.
7
— Se for uma ferramenta de trabalho, seja rápido.
8
— Não pegue sucessivamente emprestados livros da mesma pessoa, sem
devolver os anteriores.
9
— Não constranja seu próximo pedindo emprestado livros raros ou
com valor sentimental.
10
— Não empreste livros que pegou emprestado.
11
— Demorar para devolver é o mesmo que não devolver.
12
— Esquecer de devolver é o mesmo que surrupiar.
13
— Não misture com seus livros.
QUADRILHA, poema de Itárcio Ferreira
Plagiando Drummond
Itárcio amava Emília
que amava Itárcio, mas eram tão crianças.
E o amor não passou de
uns verões em Pontas de Pedras.
O tempo, esta
quadrilha, roubou-me a inocência.
De Emília nunca mais
tive notícias, se casou, se amou, se morreu.
O amor, costuma vir
visitar-me de tempos em tempos.
Mesmo sem ser
convidado, deita-se em minha cama,
Abusa de minha
intimidade, bebe minhas cervejas, faz dívidas que tenho que pagar.
Ah os agiotas! As
amantes e o delírio.
Cansado, acostumou-se
a abandonar-me, quando penso que o aprisionei.
Será a solidão minha
penúltima morada?
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