"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
quinta-feira, 22 de junho de 2017
quarta-feira, 21 de junho de 2017
A GAIVOTA MORTA, poema de Ângelo Monteiro
Não morrerás jamais
minha gaivota
suprema ave do mar, pobre princesa
estás na alma do poeta presa
enquanto a alma do poeta é morta
suprema ave do mar, pobre princesa
estás na alma do poeta presa
enquanto a alma do poeta é morta
Suprema alma do poeta
viva
suprema alma da gaivota morta
com a tua morte a vida fez-se altiva,
com a minha vida encontro a mesma porta.
suprema alma da gaivota morta
com a tua morte a vida fez-se altiva,
com a minha vida encontro a mesma porta.
Negra ave do céu,
cativa e eterna,
tu pairas sobre o mar depois de morta
eu pairo nesta vida que se inferna.
tu pairas sobre o mar depois de morta
eu pairo nesta vida que se inferna.
Negra gaivota morta,
vida minha.
Tuas asas perdi em em hora torta
na terra te ganhei como rainha.
Tuas asas perdi em em hora torta
na terra te ganhei como rainha.
Ângelo Monteiro
Grandes escritores & maconha (7)
(Nietzsche: óleo sobre tela de Edvard Munch, 1906)
“Quando a gente quer se livrar de uma pressão insuportável o haxixe é necessário.”
terça-feira, 20 de junho de 2017
PROBLEMA NA FAMÍLIA, poema de Geraldino Brasil
A
família ia bem,
mas
o filho mais novo.
A
família ia bem,
quebra
a casca do ovo.
A
família ia bem,
vê
a rua, olha o povo.
Um
problema surgiu,
um
poeta na família.
Geraldino Brasil
Para refletir (87)
Karl Marx e Friederich Engels
("Manifesto Comunista" de Karl Marx e Friederich Engels)
segunda-feira, 19 de junho de 2017
ENVOI, poema de Ezra Pound
Vai,
livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz
a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz
a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.
Ezra Pound
Tradução
de Augusto
de Campos
sábado, 17 de junho de 2017
Eterna Mágoa, poema de Augusto dos Anjos
O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Da tristeza do mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resisitir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resisitir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga
Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!
Augusto dos Anjos
sexta-feira, 16 de junho de 2017
VOO, poema de Itárcio Ferreira
Voo sempre em direção
a ela,
tentando tocar com
minhas
mãos
a mão desta arte:
a Poesia.
Mas ela dá voos
rasantes,
Enquanto eu mal consigo
me pôr sobre as pernas:
pesa
a força da idade
e da poliomielite.
Mas o que mais pesa
mesmo,
de um peso descomunal,
titânico,
é
o peso da incerteza:
o destino final.
o destino final.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
A SEMANA, poema de Weydson Barros Leal
Devemos amar quando crianças.
Quando verdadeiramente somos
O medo e a solidão, a alegria e o contentamento
Em coisas demasiado simples, como
Parcerias em jogos de cartas, doces, guardados,
A vizinhança em assentos públicos.
Na idade adulta não se deve amar.
Não sabe o amor a idade da razão
Onde em si não cabe com o instinto animalesco da
pureza.
Dizemos amar num tempo em que há o punho da
[sobrevivência,
[sobrevivência,
Mas o amor não distingue a fome, e uma cegueira
Não alimenta o mesmo corpo que o pão corrói.
Amamos por piedade, por chão,
Amamos em agradecimento,
Amamos por pena, por cura, por limites,
Por precisão.
Amamos em detrimento, em culpa e abnegação;
Dizemos amar por paixão
Quando amamos em número,
E ávidos permanecemos escutando moedas e dentes
Em cerimónias e jornais.
Amamos por paz e por guerra,
Amamos por ódio, por reclusão,
Por definhamento e morte.
Somos amantes do companheiro, que é vão
Entre a arte e a solidão dos que só amam.
Amamos o medo que não nos deixa ficar sós,
Amamos o medo que não nos deixa ficar sós,
E amamos as pessoas absolutamente sós, sós
[por nós
[por nós
E que não tenham mais ninguém
A não ser os frutos do nosso conhecimento.
Buscamos amar o futuro e o passado —
Perseguimos o passado— e ambos não existem
Se o amor é onde e quando eternamente: amamos a
vida —
A morte é a solidão desenvolvida.
Amamos sempre em 3a. pessoa,
Quando nosso cego propósito é um aniquilamento
Em nome de todas as formas verbais —
Amamos quando somos cegos. —
E as vidas, como os amores e as mortes —
O amor e a morte são próximos
Como o ódio e a paixão —
Sempre acompanhadas de ritos e cerimónias ridículas,
Seguem pelas ruas a distribuir flores
E cartões de seasons.
Amamos quando estamos infinitamente doentes
De uma morte que se recupera — o amor é queda
E levitação.
Sejamos mais novos,
Envelheçamos como quixotes que geram sonhos e
ilusões —
O amor é isto.
E não saberemos viver outra vida sem morte
Como não se cai sem estar de pé,
Como não se vê o sol sem estar de pé,
Como não se deve dizer como
Acabam os poemas,
Como findam as penas,
Como findam o amor e a semana,
Ou como ambos se renovam.
Weydson Barros Leal
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