Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Torre Azul, poema de Mario Quintana


É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.

É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…

"Ain't Got No, I Got Life" - Nina Simone

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Ó Capitão, meu Capitão!, poema de Walt Whitman


Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que
buscávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos, toda a gente está
exultante,
Enquanto segue com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.

Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto”


Tradução de Maria de Lurdes Guimarães

Sociedade dos Poetas Mortos - "Ó Capitão! meu Capitão!"

terça-feira, 19 de abril de 2016

Janis Joplin - "Summertime"

A uma passante, poema de Charles Baudelaire

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A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz… e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Charles Baudelaire

Tradução: Ivan Junqueira

Para refletir (8)

Mario Sergio Cortella

Os chineses acham que devemos lidar com a história e não com o momento. Você só compreende o hoje se olha a história no seu desenvolvimento. É bom recordar o que falavam as avós: ‘Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe’. Portanto, nada de desespero. Problemas agudos se dissolvem no tempo. Os efeitos colaterais não são insuperáveis; podemos lidar com eles. É bom lembrar que devemos ter cuidado num mundo multifacetado, multicultural e multidiverso. Por isso, não podemos nos fechar em grupos exclusivos – só católicos, só gays, só muçulmanos -, o que leva à política do gueto e dilui a ideia de humanidade.”

(Mario Sergio Cortella, filósofo e educador brasileiro)

A arte de Miyagawa Choshun

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segunda-feira, 18 de abril de 2016

UM HOMEM NUNCA CHORA, poema de José Craveirinha


Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!


Websérie “Mulheres Virais” conta a história de 3 atrizes maduras que estão à margem do mercado

Websérie Mulheres Virais - Segunda Temporada

Por Zém, via Clave do Sul
A websérie “Mulheres Virais” conta a história de Susana (Beth Zalcman), Marli (Odete Rocha) e Lúcia (Regiana Antonini), que se conheceram na década de 80 durante um curso de interpretação promovido por um diretor canastrão que seduziu as 3, fazendo com que se separassem.
Devido à dificuldade de encontrar bons papeis depois dos 50 anos, as 3 se juntaram novamente 30 anos depois, na tentativa de rodar um filme independente. Sem sucesso, elas agora, agitam a segunda temporada buscando na internet o reconhecimento que merecem com a ajuda do filho de Lúcia, Juca (Bruno Tasca). 
Websérie Mulheres Virais
“A primeira temporada fez um grande sucesso entre mulheres na faixa dos 40 e 60 anos, um grupo que não é muito representado nas séries de televisão, muito menos na internet”, conta Guilherme Macedo, criador e diretor da websérie, ao portal iG. “Hoje, a maioria do que é produzido na web é voltado para os jovens, ignorando um grande número de pessoas mais velhas, que também estão conectadas”, complementa.
A segunda temporada começa 27 de abril de 2014. Confira teaser abaixo.

domingo, 17 de abril de 2016

A era do drama fora de contexto, nascida com a internet, por Ubiratan Muarrek



Por Ubiratan Muarrek

A Internet dos sonhos nasceu na década de 90, e morreu em algum ponto próximo a 2007. Até meados dessa data, acreditava-se que a world wide web revolucionaria, para melhor, praticamente todos os aspectos da vida humana, da economia à cultura, passando pela democracia, entendimento global e a qualidade das relações pessoais.

Em 2016, revelada a ambição de Mark Zuckeberg de consolidar o império do Facebook em meio a destroços — da economia, cultura, democracia, entendimento global e relações pessoais  , reinterpretações do verdadeiro caráter da rede começam a colocar as coisas em seu devido lugar.

Em 2007, quem imaginaria, por exemplo, que o close de uma marmota para uma câmera, sob o suspense de uma trilha sonora retirada do filme Jovem Frankenstein, equivaleria a um napalm cultural?

E que a mistura de drama e nonsense contaminaria o fluxo de informações de tal maneira que inauguraria uma nova era na comunicação digital?

Para cada novo estilo ou jeito de fazer as coisas, os que saem na frente dão, via de regra, o tom do que virá depois. Na comunicação instantânea, o vídeo Marmota Dramática é o representante mais vistoso da inauguração de uma nova era.

A Era do Drama Fora de Contexto, nascida com a Internet: 

Dezenas de milhões de visualizações depois, fica mais claro agora, com o fluxo de informações contínuo a que nos submetemos, perceber que a Marmota Dramática não adicionava apenas seis segundos de humor e estupidez no vasto repertório da comédia humana.

A marmota fornece o formato, uma espécie de receita de como existir e ser notadoou seja, como fazer comunicaçãonum contexto viral.

Considere alguns bilhões de pessoas, conectadas por aplicativos de fácil acesso, dispostasávidasa compartilhar o que lhes caia, literalmente, nas mãos.

Encontre a sua marmotaconsidere as lutas de classe, as polarizações de raça e gênero, as disputas econômicas, o esgoto da política, a miséria produzida pelas redações, o apreço pela desgraça alheia, as catástrofes naturais, os preconceitos milenares, traições, CPIse o ressentimento, que inflama tudo isso e prospera igualmente entre os 99% do lado de cá e os 1% de Wall Street.

Selecione cenas que reflitam parcialmente, ou que em nada reflitam, o contexto natural das dissensões.

Adicione Tchaikovsky. Ou Iron Maiden. E aperte o botão “enviar”.

A Internet cuidará do resto. Basta checar os viewslikes, shares retweets.

Vejamos o exemplo da marmota. É inacreditável o fato de que os seis segundos que representam um abalo na cultura tenham sido extirpados de uma ingênua apresentação de pets (ou seja lá sobre o que seja) num programa vespertino da TV japonesa.

Veja com seus olhos (nossa marmota aparece aos 2´30"): 
E é incrível como os seis segundos “originais” foram editados e reeditados em centenas de versõesoutro elemento do zeitgeist: editar e reeditarpor mentes brilhantes e criativas das quais ninguém nunca ouviu, e provavelmente nem irá ouvir, falar (insight: sempre haverá alguém capaz de descontextualizar algo melhor do que você).

E chegamos ao Marmota Remix: 
Os efeitos dessa reviravolta na comunicação, porém, talvez não sejam tão incrivelmente divertidos.

Podemos até rir com a marmota-Bin-Laden. A versão Star Wars é particularmente engraçada!

Porém, o sex tape de uma filha adolescente, a transcrição parcial da conversa telefônica de um funcionário público, ou um trecho selecionado de um relatório de governo, “vazados na Internet”, podem ter consequências devastadoras.

Atrás da expressão de “surpresa” da marmota, escondia-se um elemento central, a partir da entrada da Internet na totalidade da vida cotidiana: um cenário social e político de crise e disputa permanente de significados e valores, que se renova e se reafirma a cada susto que tomamos num alerta de WhatsApp.

A afirmação do poder pelo controle da imagem remonta ao despertar dos séculos. Da monumentalidade das pirâmides do Egito, aos desfiles pomposos dos monarcas europeus, havíamos chegado ao controle minucioso e profissional das aparições de políticos e celebridades na televisão.

Então, surgiu a Internet.

Com ela, o fluxo de informações se instala, as mentesincluindo as insanas— se empoderam com as novas mídias, e a crescente ansiedade coletiva chamada globalização se soma à dificuldade cada vez maior de lidar com a complexidade de um mundo em transformação.

Como bem aprendeu o Estado Islâmico, que recontextualiza rituais ancestrais de terror em vídeos de visibilidade— e capacidade de intimidaçãoglobal, qual melhor maneira de tirar proveito disso, que não sejam seis segundos de choque e pavor?

Bem-vindos à Era da Marmota. Tome um Lexotan e siga o flow. 

sábado, 16 de abril de 2016

O LIMITE DIÁFANO, poema de Sebastião Alba

«Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, 
o espólio será fácil de verificar: 
dois sapatos, a roupa do corpo 
e alguns papéis que a polícia não entenderá».


Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

Sebastião Alba

Caetano Veloso - "Irene"

Me perdoe Jesus


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Amor cristão

A BEATA – OS SANTOS – OS PECADORES – OS PUROS – O DEMÔNIO – A MORTE, Poemas de Antonio Miranda


A BEATA
A mácula de teu corpo
está em negar-se.
Condenas teu corpo
à inutilidade
e tua pureza é falsa.
Atávica e filantrópica
compartilhas com Cristo
sua coroa de espinho
e o beneplácito gesto.
Estás certa de tua salvação
e és capaz de julgar em Seu nome.
Importante saber como perder-se.

OS SANTOS
Os que nasceram puros
e morreram puros
nunca foram santos.
Arrepender-se é um dever de cristão.

OS PECADORES
A revelação da fé:
privilégio dos pecadores.

OS PUROS
Morrem cegos da verdade
Jesus anuncia-se pelos pecados.

O DEMÔNIO
Para isso foi inventado:
para medir a grandeza de Deus.

A MORTE
 
Quanto não vem mais da vida
cada dia
nosso temor.
Inventemos deuses
desesperadamente.
A imortalidade da alma:
há que eludir os deuses.
Deus
não pôde tornar perfeitas
as criaturas humanas
e se afastou das criaturas
tomado de vergonha.

Judy Garland - "Over The Rainbow"

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Retrato de Charles Baudelaire" por Gustave Courbet, cerca de 1848


Para refletir (7)

Charles Baudelaire

"Edgar Poe disse, não sei mais onde, que o resultado do ópio para os sentidos é o de revestir a natureza inteira de um interesse sobrenatural que dá a cada objeto um sentido mais profundo, mais voluntário, mais despótico."

(Charles Baudelaire, poeta francês)