Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 10 de maio de 2016

ORAÇÃO POR MARILYN MONROE, poema de Ernesto Cardenal


Senhor
recebe a esta moça conhecida em toda parte pelo nome de Marilyn Monroe
mesmo que esse não fosse seu verdadeiro nome
(mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o da pequena órfã violada aos 9 anos
e da empregadinha de loja que aos 16 anos já queria se matar)
e que agora se apresenta diante de Ti sem maquiagem
sem um Agente de Imprensa
sem fotógrafos e sem dar autógrafos
solitária como um astronauta diante da noite espacial.

Ela sonhou quando menina que estava nua numa Igreja (pela versão do Time )
ante uma multidão prostrada, com as cabeças no chão
e tinha de caminhar pé ante pé para não pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras –Igreja, casa, cova são a segurança do seio materno
mas também algo mais que isso...
As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na escuridão debaixo do facho de luz).
Mas o templo não são os estúdios da 20th Century Fox.
O templo – de mármore e ouro – é o templo de seu corpoem que está o Filho do Homem com látego na mão
expulsando os mercadores da 20th Century Fox
que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

Senhor
neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
Tu não culparás tão-somente a empregadinha da loja.
Que como toda empregada de loja sonhou ser estrela de cinema.
E seu sonho tornou-se realidade (mas com a realidade do technicolor).
Ela não fez senão atuar conforme o script que lhe demos
- O de nossas próprias vidas – E era um script absurdo.
Perdoa Senhor e perdoa-nos a todos pela nossa 20th Century Fox
por esta Colossal Superprodução em que todos nós trabalhamos.

Ela tinha fome de amor e lhe demos tranqüilizantes,
para a tristeza de não ser santos, recomendamos-lhe a Psicanálise.
Lembra-te Senhor de seu crescente pavor à câmera
e o ódio à maquiagem – insistindo em maquiar-se em cada cena –e como foi se tornando maior o horror
e maior a impontualidade nos estúdios.

Como toda empregada de loja
sonhou tornar-se estrela de cinema.
E sua vida foi irreal como um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados
que quando se abrem
descobre-se que foi sob os refletores
e apagam os refletores!
e desmontam as paredes do aposento (era um set cinematográfico)
enquanto o Diretor se afasta com sua caderneta porque a cena já foi filmada.
Ou uma viagem de iate, um beijo em Cingapura, um baile e no Rio
uma recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
vistos na TV de um apartamento miserável.

O filme terminou sem o beijo final.
Foi achada morta em sua cama com a mão no telefone.
E os detetives não souberam a quem ela ia chamar.

Foi como alguém que discou o número da única voz amiga
e ouviu apenas a voz de uma gravação que diz: WRONG NUMBER.
Ou como alguém que ferido pelos gangsters
estende a mão a um telefone desligado.

Senhor
quem quer que tenha sido quem ela queria chamar
e não chamou (e talvez fosse ninguém
ou era Alguém cujo número não está na Lista de Los Angeles)
atende Tu ao telefone!

Ernesto Cardenal

Tradução de Antonio Miranda

Versão do poema em espanhol

Um poema para Brigitte Bardot

Lorena Nunes - "Ouvi Dizer Que Lá Faz Sol" (ao vivo)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

sinto muito não ser assim suave, poema de Regina Azevedo

bom dia, gente. a pré-venda do meu livro “carcaça” está um sucesso, gracias, e aconselho garantir logo o seu. até quarta, por 15 reais. depois de impresso, 20. a tiragem é mínima e não vou colocar em livraria nem em canto nenhum pra vender. só internet ou na mão mesmo. mandaí um e-mail pra reginilda12@gmail.com ou uma mensagem inbox, vai.

sinto muito não ser assim suave
você disse que aquele pássaro
era da cor do meu cabelo
mas ele era vermelho
e nosso amor está em algum lugar
entre o voo e a extinção da espécie
meu cabelo é laranja
laranja porque sou poeta
(e prefiro ter cara de poeta
a ser bonita)
você estava andando na rua
viu um pássaro
e lembrou do meu cabelo
isso diz muito sobre
seus olhos
esses, sim, vermelhos

Para refletir (11)

Zygmunt Bauman



Mais e mais pessoas duvidam que os políticos sejam capazes de cumprir suas promessas. Assim, elas procuram desesperadamente veículos alternativos de decisão coletiva e ação, apesar de, até agora, isso não ter representado uma alteração efetiva.”

(Zygmunt Bauman, sociólogo polonês)

Moraes Moreira - "Preta, Pretinha" (Eu ia lhe chamar)

sábado, 7 de maio de 2016

Sarau da Boa Vista

Evandro Negro Bento (compositor), Chicão (poeta e crítico de arte) 
e Itárcio Ferreira (poeta e blogueiro)


No dia 30/04, último sábado do mês, aconteceu a 31ª edição do Sarau da Boa Vista, poesia, música e teatro reunidos num evento idealizado e produzido pelo poeta Aldo Lins.

Próximo Sarau da Boa Vista
Dia 28/05 - início 19 hora
Rua do Hospício - Recife
No Bar Maremoto
Em frente ao Teatro do Parque

As artes de Arthur Bispo do Rosário

IMAGENS: EDITORA ROCCO/DIVULGAÇÃO


Por Luciana Hidalgo, via VMC

Arthur Bispo do Rosário perambulou numa delicada região entre a realidade e o delírio, a vida e a arte. No refúgio de sua cela no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, o paciente psiquiátrico produziu mais de mil obras consagradas no mercado internacional de arte contemporânea. Criou um universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos durante os mais obscuros períodos da psiquiatria – época dos eletrochoques, lobotomias e tratamentos violentos aplicados para o controle de crises. Sem se dar conta, Bispo não só driblou os mecanismos de poder no manicômio como utilizou sobras de materiais dispensados no hospital para criar suas obras, inventando um mundo paralelo, feito para Deus e um escolhido do todo-poderoso, encarregado de reproduzir o mundo em miniaturas. Eram suas “representações”, afirmava. Paradoxalmente, as obras, que deveriam representar tudo o que havia na Terra acabariam reconhecidas como peças de vanguarda, incluídas por críticos em importantes movimentos artísticos. Sua arte genial chegou a representar o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, além de correr museus pelo mundo, a exemplo do Jeu de Paume, em Paris. Curiosamente, em vida, Bispo recusava o rótulo de “artista”, dado o caráter divino de sua tarefa. Mas a potência de sua obra ignora limites e até hoje atravessa fronteiras, transgredindo convenções e levando espectadores de todo o mundo ao encantamento.
A história da “loucura” de Bispo remonta à noite de 22 de dezembro de 1938, quando, aos 29 anos, conduzido por um imaginário exército de anjos, andou pelas ruas do Rio com um destino certo: ia se “apresentar” na igreja da Candelária, no centro. Peregrinou pelas várias igrejas enfileiradas na rua Primeiro de Março e terminou no Mosteiro de São Bento, onde anunciou a uma confraria de padres que era um enviado, incumbido de “julgar os vivos e os mortos”. Detalhes dessa narrativa, meio real meio ficcional, constam de um estandarte bordado por Bispo, uma das belas peças de sua vasta obra, que mistura autobiografia e autoficção. É nesse estandarte que Bispo registra a frase-síntese de sua vida e obra Eu preciso destas palavras – Escrita. A palavra tinha para ele status extraordinário, por isso seus bordados estão repletos de nomes de pessoas, trechos poéticos, mensagens.

O dia 24 de dezembro de 1938 foi um divisor de águas psíquico para Bispo. Era Natal, ele se convertia na figura de Jesus Cristo, mas acabaria sob o domínio da psiquiatria. Interditado pela polícia dois dias após a sua “anunciação”, foi enviado ao Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, onde rótulos não tardariam a marcar sua ficha: negro, sem documentos, indigente.
MANTO DA APRESENTAÇÃO (detalhe): ele passou parte da sua vida bordando a peça para usá-la no dia do Juízo Final
Após algumas semanas de internação, com o diagnóstico de esquizofrênico-paranóico e sem que ninguém o reclamasse, Bispo foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, hospício na época considerado “fim de linha”. Foi alojado no pavilhão 11 do núcleo Ulisses Viana em janeiro de 1939, um engradado destinado a doentes “perigosos”. As celas abrigavam apenas um fino colchão e, ao lado, um buraco no solo com fezes à mostra e insetos em volta.

Bispo era um dos “agitados”, na terminologia dos funcionários da Colônia. Chegou agressivo, passou um tempo preso, mas logo aprenderia a se virar. Ele havia prestado serviços à Marinha, dos 15 aos 23 anos, na função de sinaleiro-chefe. Como entre os esportes ali estimulados estava o boxe, Bispo se entregou de corpo e alma ao pugilismo. Por isto, guardas e enfermeiros logo viram nele um aliado. Forte e sisudo, o ex-boxeador rapidamente se tornou “xerife” do pavilhão. Criou um estilo próprio para deter os mais rebeldes: enrolava na mão um pano molhado entrelaçado nos dedos, como um soco inglês improvisado. O exercício do poder de xerife assegurou-lhe posição privilegiada na hierarquia da instituição e lhe permitiu recusar eletrochoques e medicações.

Acostumado a conter pacientes à sua volta, Bispo conquistou a confiança de funcionários – e pouco a pouco aprendeu também a se conter. Quando os sinais da sua “transformação” se apresentavam, era inútil combatê-los. Ele pedia para um enfermeiro de sua confiança trancafiá-lo, passando o cadeado pelo lado de fora da cela. E ali permanecia, às vezes por meses seguidos. Não aceitava refeições, passava fome: “Vou secar pra virar santo”, prometia.

Foi nessas fases de isolamento que a arte mais brotou. Na falta de material, Bispo desfiava o próprio uniforme azul do manicômio. Desfazia a veste e aproveitava fio por fio. Assim começou a cerzir o Manto da apresentação, espécie de mortalha sagrada que bordaria durante toda a vida para vestir no dia do Juízo Final, na data da sua “passagem”. Bordados no manto estão os nomes das pessoas que ele julgava merecedoras de subir aos céus – mulheres, em sua esmagadora maioria. O pano de fundo é um cobertor avermelhado do hospício, onde inscreveu minúsculos registros, “representações” dos mais variados objetos: tabuleiro de xadrez, dado, mesa de sinuca, avião, números, palavras e muito mais. Ele utilizou a mesma técnica de bordados nos estandartes: lençóis e cobertores da Colônia bordados à mão com as linhas dos uniformes. Não à toa o azul se destaca nesses panos estampados com navios, bandeiras e palavras, sempre palavras.
IMAGENS: EDITORA ROCCO/DIVULGAÇÃO
TRABALHOS DO ARTISTA foram expostos na prestigiada Bienal de Veneza, e apresentados em vários museus pelo mundo; na foto acima a obra Fichários

NOS BRAÇOS DA VIRGEM

Bispo costumava apagar o seu passado, dizendo apenas: “Um dia eu simplesmente apareci”. Mantinha o mistério sobre sua cidade natal, apesar de os dados biográficos desvelarem a verdade. Nascido em Japaratuba, Sergipe, ele contava a história do seu “aparecimento” no mundo pelos braços da Virgem Maria, a quem chamava de mãe. O pai era São José e ele, Jesus Cristo. Mas nem toda a ficção acerca de sua genealogia apagou o registro de batismo na igreja matriz de Nossa Senhora da Saúde, na praça central de Japaratuba. Lá se encontra a prova de que Arthur Bispo do Rosário foi batizado no dia 5 de outubro de 1909, aos três meses.

Ao se situar à margem do cotidiano do hospício, numa época em que a psiquiatria transformava os manicômios em campos de experimentações, ele se ilhava numa cela e se esforçava para construir um outro mundo. E nesse universo era rei. Sobre a sua própria situação e a de seus colegas, tinha opiniões muito particulares: “O louco é um homem vivo guiado por um morto”, dizia. Ou: “Os doentes mentais são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão”.

Funcionários e pacientes nem sempre compreendiam as motivações religiosas de Bispo, mas passariam a levar para ele todo tipo de sucata, em troca de objetos do escambo local. Qualquer elemento da rotina manicomial ganhava um sentido sob sua lógica. Eram objetos de plástico, aço, ferro e outros materiais, reunidos conforme o senso plástico de Bispo.

Nos primeiros tempos, num dos intervalos das “transformações”, ele voltou algumas vezes ao casarão da rua São Clemente, em Botafogo, onde a família Leoni mantinha o seu quarto. Bispo conheceu os patrões após um acidente de trabalho na Viação Excelsior, onde prestava serviço como borracheiro, após deixar a Marinha. Humberto Leoni foi o advogado encarregado de uma ação trabalhista a seu favor contra a empresa. Bispo ganhou a causa e um emprego: virou o faz tudo da família e ali morou, até ser arrastado pelas hordas de anjos e encaminhado para o hospício. Em troca de comida e moradia, fazia pequenos serviços domésticos, mas não aceitava pagamento.
BISPO DO ROSÁRIO, de espada em punho, em sua “cama-nave” adornada
Nos anos 60, Bispo voltou de vez à Colônia. Passaria as décadas seguintes preparando-se para a “passagem”. Incansável, garimpava cabos de vassoura, ripas de madeira e badulaques para construir carrinhos, objetos diversos, variações sobre um tema: a Marinha. Produziu uma sequência de embarcações de madeira com mastros, escadas, arrastões, boias, botes salva-vidas e bandeirolas.

Reciclava refugos e produzia. Juntava, por exemplo, os tênis Conga usados pelos pacientes num compensado de madeira. Ou galochas, colheres, as canecas de alumínio do refeitório. Chegou mesmo a compor uma assemblage que reúne ícones do candomblé. Não sabia que tudo isto tinha nome e classificação no mercado de arte. Signos manicomiais ganhavam novo sentido e valor estético nessa ousada desconstrução do poder no hospício.

Nos Estados Unidos, artistas se rebelavam contra os excessos da sociedade de consumo, transformando em símbolo da pop art a latinha de sopa Campbell, por exemplo. Com intenção distinta, Bispo criava em Jacarepaguá assemblages com embalagens de desodorante, detergente, amaciante e cerveja. E dedicava uma obra somente aos sabonetes: uma merendeira e vários potes de plástico abrigam rótulos de Palmolive, Cinta Azul, Gessy, Lux. O fosso a separar Arthur Bispo do Rosário do artista americano Andy Warhol, porém, era tão fundo quanto o inconsciente coletivo que os circundava. Guiado por tutores nebulosos, o sergipano mantinha uma antena apontada para a estética mundial.

MOÇAS BONITAS

Bispo lia jornais e revistas para acompanhar os fait divers. Tinha uma especial predileção pelas fotos das jovens de pernas bem torneadas, cinturas espremidas em espartilhos e olhares ao longe. Eram as misses – e suas imagens de moças castas e belas – suas favoritas. Os concursos chegavam até ele pelas publicações. A Miss Universo de 1963, Ieda Maria Vargas, era a mais admirada por ele, afinal, era a mulher mais bonita do mundo. Por isto, uma série de obras – faixas e cetros – foi dedicada às rainhas da beleza dos mais gloriosos e dos mais sofridos países do planeta. Bispo também bordou o mapa da Colônia com seus pavilhões, pacientes, funcionários. Fez um detalhado levantamento emocional, histórico e topográfico do hospício carioca numa espécie de planta baixa do asilo que o acolheu durante 50 anos (não consecutivos). Nesse estandarte estão o temido Egas Muniz (o pavilhão das lobotomias), o Bloco Médico, a casa do diretor, os rios, o posto do Exército e até os ônibus que levavam amigos e parentes de pacientes em dias de visita.

Em 1982 o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro expôs alguns exemplares do universo de Bispo numa coletiva reunindo presidiários, menores infratores e idosos, intitulada "À margem da vida". A princípio ele não quis participar, mas depois cedeu algumas obras. Na época, o crítico de arte Frederico Morais ofereceu-lhe uma sala inteira para exposição no MAM, onde Bispo poderia se espalhar e se alojar por um tempo. Ele sequer pensou no assunto. Morreu na solidão de sua cela, em 1989, sem ver seu império classificado como obra de arte, percorrendo o mundo. Mas, aos olhos da crítica e do público, era já um artista.
1909 – NASCE EM JAPARATUBA, SERGIPE. É BATIZADO EM 5 DE OUTUBRO DE 1909, AOS TRÊS MESES DE IDADE, NA IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DA SAÚDE.

1925 A 1933 – TORNA-SE MARINHEIRO, CUMPRINDO, AO LONGO DOS ANOS, A FUNÇÃO DE SINALEIRO-CHEFE.

1933 A 1937 – TRABALHA COMO BORRACHEIRO NA VIAÇÃO EXCELSIOR, SUBSIDIÁRIA DA LIGHT.

1937 – CONHECE O ADVOGADO HUMBERTO LEONI, QUE O DEFENDE NUMA CAUSA TRABALHISTA E DEPOIS O EMPREGA EM SUA CASA, PARA SERVIÇOS DOMÉSTICOS.

1938 – É INTERNADO NO HOSPITAL NACIONAL DOS ALIENADOS, NO RIO.

1939 – É TRANSFERIDO PARA A COLÔNIA JULIANO MOREIRA, NO RIO, ONDE PERMANECE DURANTE 50 ANOS NÃO CONSECUTIVOS.

1982 – O FOTÓGRAFO E PSICANALISTA HUGO DENIZART REALIZA O DOCUMENTÁRIO O PRISIONEIRO DA PASSAGEM, COM BISPO. O CRÍTICO DE ARTE FREDERICO MORAIS INCLUI ALGUMAS DE SUAS OBRAS NA COLETIVA “À MARGEM DA VIDA”, NO MAM-RJ.

1989 – MORRE NO DIA 5 DE JULHO, VÍTIMA DE ENFARTE. EM 18 DE OUTUBRO, FREDERICO MORAIS INAUGURA SUA PRIMEIRA MOSTRA INDIVIDUAL, “REGISTROS DE MINHA PASSAGEM PELA TERRA”, LEVANDO 8 MIL PESSOAS À ESCOLA DE ARTES VISUAIS DO PARQUE LAGE. A PARTIR DAÍ, SUAS OBRAS SÃO EXPOSTAS EM VÁRIOS ESTADOS DO BRASIL E EM PAÍSES COMO SUÉCIA, FRANÇA E ESTADOS UNIDOS, ENTRE OUTROS. EM 1995, REPRESENTA OFICIALMENTE O BRASIL NA PRESTIGIOSA BIENAL DE VENEZA, NA ITÁLIA.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Duração, poema de Lêdo Ivo



Toda vida é breve
por mais que ela dure
entre a areia e o vento.

Todo amor é leve
mais leve que a neve
que cai sobre a relva.

Toda vida é treva
por mais que a ilumine
a luz de cem velas.

Todo fruto é amargo:
morde-o a morte com
seu único dente.

Toda eternidade
não dura um minuto
na manhã serena.

"Forever Young" - Joan Baez

Bob Dylan & The Band "Forever Young" - A Tribute To Bob Dylan

quinta-feira, 5 de maio de 2016

UM ADEUS PORTUGUÊS, poema de Alexandre O’Neill


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
            
Alexandre O’Neill 

Nat King Cole - "Smile"

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Engels, poema Eunápio Mário


Nas árvores, com medo das outras feras
Nos grupos, na sexual promiscuidade
Descobriu-se o humano, em priscas eras
E a sua inclinação para a civilidade

Do tímido riso, de clava e lança
Às gargalhadas, de arco e flecha
Enfrentou a noite com a clara dança
Do fogo produzido com atrito e mecha

Quando fundiu ferro não mais era selvagem
O respeitável bárbaro, tendo carne e leite
Povoou a Terra, dela fez pastagem
E encontrou na guerra prático deleite

Apoderou-se o homem da direção da casa
Degradou a mulher ao conjunto de escravos
A incluiu na riqueza que a si mesmo arrasa
E, ao invés de amor, deu-lhe cruzes, cravos

Eunápio Mário

Para refletir (10)

Umberto Eco 

“Na medida em que envelheci, comecei a odiar a humanidade. Portanto, se eu tivesse um poder absoluto, deixaria que ela continuasse em seu caminho de autodestruição. Ela seria destruída e eu ficaria mais feliz. Pessoas como eu são intelectuais: nós fazemos o nosso trabalho, escrevemos artigos, temos maneiras de protestar, mas não podemos mudar o mundo. Tudo o que podemos fazer é apoiar a política de empatia”.

(Umberto Eco, escritor e intelectual italiano)

Carla Diacov empresta sua voz a Sebastião Alba

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Casa, poema de Fernando Fiorese


na rua da casa não passe.
o futuro será póstumo

a fachada da Casa não olhe.
os olhos serão outros

na calçada da Casa não pise.
a terra será queda

os frutos da Casa não coma.
dentro as paixões disparam

aos viventes da Casa não fale.
qualquer palavra é rendição

os cômodos da Casa não visite.
os gatos enlouquecem de tanta beleza

na Casa eu vivo.
os ausentes são minha família


Fernando Fiorese


Visitem o blog do poeta: corpo portátil

Matilde Campilho empresta sua voz a Alexandre O´Neill

domingo, 1 de maio de 2016

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO, poema de Vinicius de Moares


Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão. 
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as casas 
Que lhe brotavam da mão. 
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão: 
Não sabia, por exemplo 
Que a casa de um homem é um templo 
Um templo sem religião 
Como tampouco sabia 
Que a casa que ele fazia 
Sendo a sua liberdade 
Era a sua escravidão. 

De fato, como podia 
Um operário em construção 
Compreender por que um tijolo 
Valia mais do que um pão? 
Tijolos ele empilhava 
Com pá, cimento e esquadria 
Quanto ao pão, ele o comia... 
Mas fosse comer tijolo! 
E assim o operário ia 
Com suor e com cimento 
Erguendo uma casa aqui 
Adiante um apartamento 
Além uma igreja, à frente 
Um quartel e uma prisão: 
Prisão de que sofreria 
Não fosse, eventualmente 
Um operário em construção. 

Mas ele desconhecia 
Esse fato extraordinário: 
Que o operário faz a coisa 
E a coisa faz o operário. 
De forma que, certo dia 
À mesa, ao cortar o pão 
O operário foi tomado 
De uma súbita emoção 
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa 
- Garrafa, prato, facão - 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão. 

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela. 

Foi dentro da compreensão 
Desse instante solitário 
Que, tal sua construção 
Cresceu também o operário. 
Cresceu em alto e profundo 
Em largo e no coração 
E como tudo que cresce 
Ele não cresceu em vão 
Pois além do que sabia 
- Exercer a profissão - 
O operário adquiriu 
Uma nova dimensão: 
A dimensão da poesia. 

E um fato novo se viu 
Que a todos admirava: 
O que o operário dizia 
Outro operário escutava. 

E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia sim 
Começou a dizer não. 
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção: 

Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão 
Que sua cerveja preta 
Era o uísque do patrão 
Que seu macacão de zuarte 
Era o terno do patrão 
Que o casebre onde morava 
Era a mansão do patrão 
Que seus dois pés andarilhos 
Eram as rodas do patrão 
Que a dureza do seu dia 
Era a noite do patrão 
Que sua imensa fadiga 
Era amiga do patrão. 

E o operário disse: Não! 
E o operário fez-se forte 
Na sua resolução. 

Como era de se esperar 
As bocas da delação 
Começaram a dizer coisas 
Aos ouvidos do patrão. 
Mas o patrão não queria 
Nenhuma preocupação 
- "Convençam-no" do contrário - 
Disse ele sobre o operário 
E ao dizer isso sorria. 

Dia seguinte, o operário 
Ao sair da construção 
Viu-se súbito cercado 
Dos homens da delação 
E sofreu, por destinado 
Sua primeira agressão. 
Teve seu rosto cuspido 
Teve seu braço quebrado 
Mas quando foi perguntado 
O operário disse: Não! 

Em vão sofrera o operário 
Sua primeira agressão 
Muitas outras se seguiram 
Muitas outras seguirão. 
Porém, por imprescindível 
Ao edifício em construção 
Seu trabalho prosseguia 
E todo o seu sofrimento 
Misturava-se ao cimento 
Da construção que crescia. 

Sentindo que a violência 
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão 
Dobrá-lo de modo vário. 
De sorte que o foi levando 
Ao alto da construção 
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região 
E apontando-a ao operário 
Fez-lhe esta declaração: 
- Dar-te-ei todo esse poder 
E a sua satisfação 
Porque a mim me foi entregue 
E dou-o a quem bem quiser. 
Dou-te tempo de lazer 
Dou-te tempo de mulher. 
Portanto, tudo o que vês 
Será teu se me adorares 
E, ainda mais, se abandonares 
O que te faz dizer não. 

Disse, e fitou o operário 
Que olhava e que refletia 
Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objetos 
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não! 

- Loucura! - gritou o patrão 
Não vês o que te dou eu? 
- Mentira! - disse o operário 
Não podes dar-me o que é meu. 

E um grande silêncio fez-se 
Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silêncio apavorado 
Com o medo em solidão. 

Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fraturas 
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão. 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção.

A arte de Jennifer Yoswa